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As Disputas Trinitárias e Cristológicas e a Formação dos Credos na Igreja Primitiva

Por
Claudio Sampaio\Pastor em São Francisco/MG

(Este texto em sua maior parte segue com base na estrutura proposta por Francis D. Nichol, 1992, in: SDABC, Tomo 5, O Evangelho de João).

Várias crises doutrinárias abateram a Igreja, tanto pela busca de uma expressão judaica da fé cristã, quanto pelo contato com o sincretismo do mundo grego, causando cisões dentro do próprio movimento. Geralmente as duas principais fases dessas crises podem ser conhecidas como as controvérsias trinitaria e cristológica. A primeira se ocupou da condição de Cristo como Deus; e a segunda, da relação intrínseca entre sua natureza divina e sua natureza humana. A controvérsia trinitária se centraliza nas lutas da igreja contra o docetismo, o monarquianismo e o arianismo, do século I até o século IV, e a controvérsia cristológica em suas lutas com o nestorianismo, o monofisismo e o monotelismo, do século V até o VII.

De acordo com Nicholl (1992), a crença da igreja apostólica referente a Jesus está bem resumida na afirmação do Pedro de que Jesus é “o Cristo, o Filho do Deus vivente” (Mt 16: 16), e na declaração de fé citada por Paulo: “Senhor Jesus” (1Co 12: 3). Os cristãos primitivos acreditavam que ele era Deus no mais excelso sentido da palavra, e faziam desta crença a pedra angular de sua fé. Esta certeza implícita da igreja primitiva a respeito da Trindade e da natureza divino-humana de Cristo se fundamentava de modo claro nos ensinos de Jesus e dos apóstolos. Entretanto, como bem afirma Nichol (1992) não passaram muitos anos desde que Cristo tinha subido ao céu, quando idéias contrárias começaram a assolar a Igreja e se levantaram homens que falavam doutrinas contrárias e arrastaram muitos discípulos atrás de si.

Docetismo e Gnosticismo
Nichol (1992) estabelece que o primeiro engano quanto à natureza e pessoa de Cristo que abateu a Igreja geralmente se conhece como docetismo. Este nome provém do grego “dokeo” que significa “parecer” O docetismo assumiu diversas formas, mas sua idéia básica era que Cristo só parecia ter um corpo, que era um fantasma e não um homem no sentido literal. Ele se fez carne só na aparência. Esta heresia surgiu em tempos apostólicos e persistiu até muito perto do fim do século II. O docetismo caracterizava a grupos tais como os ebionitas e os gnósticos. Os ebionitas eram judeus cristãos que se apegavam aos ritos e às práticas do judaísmo. Os segundos eram principalmente cristãos provenientes do mundo grego. Para Nicholl (1992), o gnosticismo seria pouco mais que uma mescla de várias filosofias pagãs ocultas sob o disfarce de uma terminologia cristã.

Eusébio (1999) cita uma antiga e possivelmente autêntica tradição identificando Simão, o Mago (cf. At 8: 9-24) como o que primeiro iniciou o engano a respeito da natureza e da pessoa de Cristo e como o primeiro gnóstico cristão. De um dos berços da cultura daqueles dia, Alexandria também surgiu um cristão chamado Cerinto [ver nota 1]. Negava que Cristo houvesse vindo em carne, e sustentava que sua suposta encarnação só foi aparente e não real. Os ebionitas não eram gnósticos, mas sustentavam pontos de vista semelhantes a respeito da humanidade de Jesus. Consideravam que Cristo era filho literal do José, mas escolhido por Deus como o Messias, devido a sua piedade e observância da lei, e que foi adotado como o Filho de Deus por ocasião de seu batismo por João, o Batista.

Um grupo de ebionitas, os elkesaitas, ensinava que Cristo tinha sido literalmente concebido pelo Pai em séculos passados, e que portanto era inferior a ele. Em contraste com os ebionitas, que consideravam cristo como essencialmente um tipo de ser humano superior. Os gnósticos, de modo geral, negavam que ele fora um ser humano. Concebiam a Cristo como um fantasma [ver nota 2], ou que transitoriamente tomou posse de Jesus, que para eles, era um ser humano comum. A divindade não se encarnou realmente.

Depois de sua aparição e desenvolvimento nos tempos apostólicos, o gnosticismo exerceu sua máxima influência sobre a igreja nos dias do século II. Reconhecendo a grave ameaça que esse movimento significava, a igreja o combateu de modo decisivo. Ireneo, bispo de Lião, que viveu durante a segunda metade do século II, ressaltou que o apóstolo João escreveu seu Evangelho com o propósito específico de refutar os pontos de vista docetistas do líder Cerinto. Nas suas epístolas, João ainda mais claramente adverte contra a heresia do docetismo, a cujos mestres define como “anticristo” (1Jo 2:18-26; 4: 1-3, 9, 14; 2Jo 7, 10).

Durante a primeira metade do século II surgiram vários mestres gnósticos que contaminaram a igreja com suas heresias. Destaca-se entre eles Basilides e Valentin, ambos de Alexandria, e certamente influenciados por Filo. Contudo, possivelmente, o mais influente expositor das idéias do docetismo foi Marcion, durante a segunda metade século II. Tem-se dito que ele de maneira nenhuma era gnóstico, mas que suas opiniões quanto a Cristo se pareciam em excesso com as dos gnósticos. Sustentava que o nascimento, a vida física e a morte do Jesus não foram reais, meramente deram a aparência de realidade. Para ele, o Deus do Antigo Testamento, a quem considerava como um Deus cruel, não era o Deus Pai de Jesus Cristo, a quem considerava como um Deus de amor. Além disso, Marcion teria criado um cânon exclusivo para seu grupo no qual negava a autoridade do Antigo Testamento e boa parte dos escritos do Novo Testamento.

A igreja combateu decisivamente contra os crassos enganos do docetismo. Durante a segunda metade do século II, Ireneo bispo de Lião se destacou ousadamente como o grande defensor da ortodoxia contra a heresia [ver nota 3]. Segundo Walker (1981), no auge da controvérsia contra as diversas formas do gnosticismo, buscou-se uma confissão de fé que remontasse os primeiros anos da Igreja. Olson (2001) apresenta que os líderes da Igreja do século III tinham uma idéia da tradição apostólica e buscavam identificá-la e formalizá-la em um credo que pudesse servir a Igreja “em todos os lugares” (OLSON, 2001, p. 135). O fundamento para esse resumo oficial em forma de credo da doutrina apostólica se achava em uma fórmula batismal antiga usada nas igrejas de Roma. No tempo de Hipólito, essa fórmula era composta de três perguntas e três respostas. Após responder afirmativamente às perguntas, o catecúmeno era mergulhado na água. Dessa forma primária utilizada nas cerimônias batismais da Igreja primitiva teria vindo a fórmula do Credo como se apresenta na atualidade.

Monarquianismo
O monarquianismo (Lit. um “monarca” é um “governante único”) fazia ressaltar a unicidade da Deidade. Foi uma reação contra os muitos deuses dos gnósticos e contra os dois deuses de Marcion. Porém, como movimento reacionário, o monarquianismo foi ao extremo oposto, e como resultado, tornou-se em uma heresia que a igreja se viu em necessidade de condenar. Segundo Nicholl (1992), a ênfase do monarquianismo serviu, até certo ponto, para eliminar da igreja os ensinos gnósticos. Porém, essa solução teria trazido quase tanto mal como a heresia que buscava combater. A luta contra o monarquianismo começou para fins do século II e continuou até os dias do século III. Houve duas classes de monarquianos: os dinamistas (termo que provém de uma palavra grega (dínamos) que significa “poder”), os quais ensinavam que um poder divino animava o corpo humano de Jesus [ver nota 4], e os modalistas, que concebiam um Deus que se revelou em diferentes formas.

Nos dias do século III, Orígenes propôs a teoria da “geração eterna”. Segundo ela, só o Pai é Deus no sentido mais excelso. De acordo com Orígenes, o Filho é coeterno com o Pai, mas é “Deus” só em um sentido derivado. Orígenes acreditava que a alma de Cristo preexistiu, mas foi diferente de todas as outras por ser pura. O Logotipos, ou Verbo divino, cresceu em indissolúvel união com a alma humana de Jesus. Distinguindo entre theós (Deus) e ho theós (o Deus) de João1:1, Orígenes chegou à conclusão de que o Filho não é Deus em um sentido primitivo e absoluto, podendo ser “Deus” só em virtude de ter recebido um grau secundário de divindade que poderia chamar-se theós, mas não ho theós. Ficaria, pois, Cristo na metade do caminho existente entre as coisas criadas e as que não o são. Para Nicholl (1992), Orígenes pode ser chamado o pai do arianismo.

Arianismo.
No início do século IV Ário, um dos líderes da Igreja da Alexandria, aceitou a teoria do Orígenes quanto aos Logotipos, embora não reconhecesse nenhuma substância intermediária entre Deus e os seres criados. Em razão disso, deduziu que o Filho não é divino em nenhum sentido da palavra a não ser estritamente uma criatura, embora a mais excelsa e primeira de todas, e que por isso, houve um tempo quando não existia. Ensinava também que só há um Ser (o Pai) a quem lhe pode atribuir uma existência atemporal, que o Pai criou ao Filho de um “nada” e que antes de ter sido gerado por um ato da vontade do Pai, o Filho não existia. Para Ário, Cristo tampouco era verdadeiramente humano porque não tinha uma alma humana, nem era verdadeiramente divino, porque lhe faltava a essência e os atributos de Deus. Simplesmente, era o mais excelente de todos os seres criados. O homem Jesus, foi eleito para ser o Cristo em virtude de seu triunfo, que Deus reconheceu mediante sua submissão.

A controvérsia ariana foi motivo da reunião do Primeiro Concílio de Nicéia, em 325 d.C. Nesse Concílio, Atanásio se apresentou como “o pai da ortodoxia”, ao sustentar a fé na existência eterna de Jesus Cristo e Este que era da mesma essência do Pai. Aplicando a Cristo o termo homoóusios, (“mesma substância”), o Concílio afirmou sua crença de que ele é da única e mesma essência com o Pai. O Concílio também declarou anátema ao arianismo e declarou que não negava a unidade da Deidade quando defendia a Trindade, nem negava a Trindade quando defendia a unidade. Por isso, o Credo de Nicéia afirma que o Filho é do Pai Luz de Luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai. Abaixo, um transcrito de parte do Credo niceno:

“Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na Terra; o qual por nós homens e por nossa salvação desceu, e se encarnou e se fez homem e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir e no Espírito Santo” (in: SILVA, 2005, p.34-35).
Este credo converteu-se na prova crucial da ortodoxia trinitária. Os arianos rechaçaram a decisão do Concílio, recorreram ao cisma e durante vários séculos o arianismo demonstrou ser um dos inimigos mais terríveis da Igreja. Depois do Primeiro Concílio da Nicéia, um grupo às vezes chamado de semiarianos também afetou a Igreja. Sua palavra-chave era homoióusios, com a qual descrevia ao Filho como de uma “substância parecida” à do Pai, em contraste com homoóusios (“mesma substância”), do Credo Niceno. Os bispos Apolinário e Marcelo se destacaram entre os opositores à ortodoxia depois do Concílio de Nicéia. Ambos afirmavam a verdadeira unidade do divino e o humano em Cristo, mas negavam sua verdadeira humanidade, afirmando que a vontade divina fez da natureza humana de Jesus um instrumento passivo. Estes diversos problemas resultaram em outro Concílio, realizado em Constantinopla em 381 d.C. Este Concílio reafirmou o Credo Niceno, esclareceu seu significado, e declarou a presença das duas verdadeiras naturezas de Jesus Cristo.

Nestorianismo.
Após o Concílio de Constantinopla, a atenção da igreja se voltou para o aspecto cristológico do problema da natureza e pessoa de Cristo. Tentou-se definir a natureza do elemento divino e do elemento humano em Cristo, e declarar a relação entre os dois. Como podiam coexistir duas naturezas pessoais em uma única pessoa?

Essa fase da controvérsia se centralizou em duas escolas teológicas opostas, uma em Alexandria e a outra em Antioquia da Síria. Ambas reconheciam a verdadeira unidade da divindade e da humanidade em uma única pessoa: Jesus Cristo. A escola de Alexandria ressaltava a unidade das duas naturezas, mas destacava a importância da Deidade, ao passo que a escola da Antioquia ressaltava a distinção entre as duas naturezas e destacava a importância do aspecto humano. Os adeptos de Antioquia sustentavam que a divindade e a humanidade se relacionaram em uma coexistência constante e em uma cooperação, sem fundir-se realmente. Separavam as duas naturezas na pessoa de Cristo, declarando que não houve uma união completa a não ser só uma associação permanente. Faziam uma distinção radical entre Cristo como o Filho de Deus e Cristo como o Filho do homem, e reconheciam em forma mais clara a natureza humana. Concebiam a unidade das duas naturezas como se tivesse realizado mediante a unidade das vontades respectivas. Preservavam a realidade e a integridade da natureza humana de Cristo, mas colocavam em perigo a unidade da pessoa. Era uma união imperfeita, incompleta, indefinida e mecânica, na qual as duas naturezas não estavam realmente unidas em uma só pessoa dotada de consciência. Por outra parte, os alexandrinos concebiam uma compenetração milagrosa e completa das duas naturezas, havendo-se fundido a humana com a divina e havendo-se subordinado aquela a esta. Dessa maneira, Deus entrou na humanidade, e por meio dessa união da Deidade e da natureza humana se fez possível que Cristo levasse a humanidade de novo a Deus.

O choque das duas escolas chegou a seu clímax na controvérsia nestoriana, a princípios do século V. Nestório de Antioquia aceitava a verdadeira divindade e a verdadeira humanidade, mas negava sua união em uma só pessoa autoconsciente. O Cristo dos nestorianos é em realidade duas pessoas que desfrutam de uma união moral afim. Entretanto, nenhuma delas está decisivamente influenciada pela outra. A Deidade não se humilha; a humanidade não se elogia. Há um Deus e há um homem, mas não há um Deus-homem.

O terceiro Concílio Ecumênico da igreja se reuniu no Éfeso, em 431, com o propósito de decidir a controvérsia existente entre as escolas da Antioquia e Alexandria. O concílio condenou ao Nestório e seus ensinos, mas não considerou necessário redigir um novo credo que substituísse ao Credo Niceno. Em realidade, nada se decidiu nem realizou, exceto ampliar a brecha, e a controvérsia resultante tomou tais proporções que ficaram a um lado todos os outros problemas doutrinais.

Monofisismo.
Algum tempo após o Concílio de Éfeso outra teoria conhecida como monofisismo, ou eutiquianismo surgiu na Igreja. Esta se caracterizou por apresentar uma perspectiva de Cristo contrária ao nestorianismo. Seu principal expositor era Eutiques. Ele sustentava que a natureza humana original do Jesus se transformou na natureza divina no instante da encarnação, e com o resultado, o Jesus humano e o Cristo divino chegaram a ser uma só pessoa e uma só natureza. Afirmava a unidade da autoconsciência, mas segundo ele, as duas naturezas estavam fundidas de tal maneira, que, na prática, perdiam sua identidade individual. Em 451 d.C. se reuniu o Concílio da Igreja em Calcedônia com o propósito de se declarar acerca do nestorianismo e do monofisismo, e condenou a ambos. Tanto Nestório como Eutiques rejeitaram a decisão do Concílio, dando lugar a seitas independentes do Cristianismo da mesma maneira que Ário havia feito alguns anos antes.

O Concílio da Calcedônia também afirmou a perfeita divindade e a perfeita humanidade de Cristo, sua mesma substância com o Pai quanto a sua natureza divina e consubstancial conosco quanto a sua natureza humana, mas sem pecado. O Concílio preservou a identidade de cada natureza e declarou que as duas eram distintas, sem mescla, imutáveis, indivisíveis, e inseparáveis. Além do mais, reconheceu a divindade, e não à humanidade, como a base da personalidade de Cristo. Pelo fato da pessoa de Cristo ser uma união de duas naturezas, se propôs que o sofrimento do Deus-homem foi em verdade, infinito; sofreu em sua natureza humana e não em sua natureza divina, mas a paixão foi infinita pelo motivo de que a sua pessoa é infinita. O Credo de Calcedônia (conhecido também como o “Símbolo de Calcedônia”), reza em parte:

"Nós, portanto, seguindo os Santos Pais, todos a uma voz ensinamos os homens a confessar que o Filho e nosso Senhor Jesus Cristo é um e o mesmo, que é perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial (homoousin) com o Pai quanto à sua divindade, e consubstancial conosco quanto à sua humanidade, um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, em duas naturezas, inconfusa, imutável, indivisível e inseparavelmente, não sendo a distinção de natureza de modo nenhum abolida pela união, mas antes sendo a propriedade de cada natureza preservada e concorrendo em uma só pessoa (prosopon) e uma só substância (hypostasis), não separada ou dividida em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho e Unigênito, Deus, o Verbo, o Senhor Jesus Cristo, como os profetas, desde o começo têm declarado a respeito dele, e como o senhor Jesus Cristo mesmo nos ensinou, e como o credo dos santos Pais nos legou”. (in: WALKER, 1981, p.2001).

Como resultado do Concílio da Calcedônia, o cisma no Oriente se intensificou. Finalmente, o imperador Justiniano, convencido de que a segurança do império requeria uma solução do problema, enclausurou permanentemente as escolas da Antioquia e Alexandria, os dois centros de controvérsia. No Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, a igreja decidiu suprimir pela força o monofisismo, o qual se converteu em um cisma permanente e persistente até hoje em dia em seitas cristãs tais como os jacobitas, os coptos e os abisinios. Confirmando o Símbolo de Calcedônia, a Igreja realizou uma distinção definitiva entre a ortodoxia e a heterodoxia. Essas cristologias têm sido denominadas de descendente e ascendente [ver nota 5].

Avaliação e conclusão
Ao proceder a uma análise do ambiente e circunstâncias do surgimento dessas declarações de fé da Igreja, o que se nota é que elas não surgiram por acaso. Na verdade, surgiram em meio à dificuldades internas da Igreja. Quanto ao sentido de dificuldades internas, se diz sobre as diversas maneiras de interpretar o Evento Cristo dentro da própria Igreja e sua implicação para a vida cristã. Os cristãos provenientes de um mundo semítico em seu contato com o mundo grego aceitaram diversas idéias vindas do paganismo e a partir destas, buscavam explicar a sua fé na pessoa de Cristo, levando as divisões dentro da própria igreja nascente. Justo Gonzalez (1997) afirma com propriedade que, apesar do início intrépido de Pedro em At. 2, a Igreja se encontrava despreparada frente às dificuldades doutrinárias, como se evidenciou no momento em que se tornou um problema a inclusão dos gentios no corpo da Igreja. Desse modo, a Igreja se viu na obrigação de elaborar a primeira recomendação aos cristãos em forma de um documento que se tornaria uma regra para a vida dos cristãos do século I. A partir dali, nota-se uma prática que se repetiria na Igreja com o correr dos anos.

Olson (2001) apresenta que há certas reservas quanto à autoridade dos concílios e seus documentos em forma de credos. Segundo ele, para a Igreja Católica Romana, há autoridade em vinte e sete. As Igrejas Ortodoxas Orientais aceitam sete dos concílios, embora haja entre alguns de seus líderes certa divergência acerca do sétimo. O protestantismo tem se dividido. Olson (2001) afirma que

“... as denominações protestantes magisteriais, como as principais denominações luteranas, reformadas e anglicanas (Igreja da Inglaterra, Episcopal) reconhecem que somente os quatro primeiros são dotados de certa autoridade especial e mesmo esses são considerados inferiores às Escrituras.” (OLSON, 2001, p.162).

Para outras ramificações cristãs não há nenhuma importância nos concílios, entendendo que a formulação dos credos sejam uma evidência de uma influência política sobre a Igreja bem como uma negação do princípio “a Bíblia só” declarado por Lutero nos dias da Reforma Protestante do século XVI.

Neste ensaio se apresentou de inicio, o panorama cultural da Igreja em seus primeiros dias a fim de que se entendesse a necessidade de uma formulação das regras de fé para a Igreja nascente frente às principais crises doutrinárias que abateram a comunidade cristã em seu período apostólico.

O que se conclui, é que, de fato, a Igreja se desenvolveu em um ambiente desafiador. A influência do Judaísmo palestinense viria a impor um monoteísmo rígido que ameaçava a fé na Deidade de Jesus Cristo como aceitavam os primeiros cristãos. O gnosticismo viria como um afastamento da fé exposta na Escritura, com base apenas em crenças populares do misticismo grego. Por isso, em seus desafios, a fé cristã apresentou em todos os momentos a necessidade de uma formalização de um credo. Estes credos eram formalizados sempre em defesa da fé, de modo a não negar o seu conteúdo original. Desse modo, pela perspectiva do ambiente, a fé apostólica manteve sua ortodoxia, o que se entende que os credos da igreja primitiva sejam uma formulação da ortodoxia doutrinária da Igreja.

Notas de referência
1. O herege Cerinto tem sido classificado por alguns como ebionita e por outros como gnóstico.
2. O "éon" seria uma inteligência eterna emanada da divindade suprema, segundo os ensinos gnósticos.
3. A obra apologética de Irineo, Contra Heresias, escrita especificamente contra a heresia gnóstica, segundo Nicholl (1992), é apreciada até os dias de hoje. De acordo com ele, a grande ênfase de Irineo nessa obra era a fé na Trindade.
4. Os dinamistas supunham que Jesus não tinha divindade própria em si mesmo e que lhe faltava uma alma realmente humana.
5. Por descendente, se entende a cristologia que parte da encarnação de Deus, sob a perspectiva do evangelho de João; e por ascendente, se entende a cristologia que parte da divinização do homem, sob a perspectiva dos evangelhos sinópticos. Segundo Leonardo Boff (1977), ambas devem ser aceitas como legítimas cristologias bíblicas. Carlos Ignácio González (1992) utiliza as palavras “descenso” e “ascenso” para definir esses dois ramos da cristologia herdada desse período, com o mesmo sentido de Boff.

BIBLIOGRAFIA

BOFF, Leonardo. Paixão de Cristo, paixão do mundo. Petrópoles, RJ: Vozes, 1977.

EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica: Os primeiros quatro séculos da igreja cristã. 3ª. edição. Lucy Iamakami, e Luiz Aron de Macedo, Trads. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1999.

GONZÁLEZ, Carlos Ignácio. Ele é a nossa salvação. São Paulo: Loyola, 1992.

GONZALEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo vol. 1: A era dos mártires. (3a. edição). Key Yuasa, Trad.. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1989.

NICHOL, Francis D. (Org.). Comentário bíblico adventista del séptimo dia. Vol. 5: Evangelho Segundo San Juan. 2ª. Ed. Traduzido do original inglês por: Victor E. Ampuero Matta, e Nancy W. Vyhmeister. Mountain View, Ca: Públicaciones Interamericanas, 1992.

OLSON, Roger. História da Teologia cristã. 1ª edição. Gordon Chown, Trad. São Paulo: Vida, 2001.

SILVA, Rodrigo Pereira. “Trindade: um dogma de Constantino?” in: Parousia: Revista do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, sede Brasil, ano 4, no 2. (Editada por: Amim A. Rondor & Alberto R.Timm). Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, Segundo semestre de 2005, p.31-40.

WALKER, W. História da Igreja Cristã. 4ª edição D. Glênio Vergara dos santos, e N. duval da Silva, Trad. Rio de Janeiro: ASTE/JUERP, 1981.

 
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