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A Bíblia Como Regra de Fé e a Fé Depois da Bíblia.


Certa vez alguém me questionou porque nos preocupamos com o seguimento das orientações do Manual da Igreja, como liderança da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Outros poderiam desmerecer a leitura dos escritos de Ellen White para compreender a maneira correta de viver a fé. Isso, por entender que não seria adequada a leitura de outros documentos ou livros para a vivência da fé, uma vez que temos a Bíblia e a Bíblia só, como regra de fé e doutrina.

Podem não saber disso, mas essa ideia é uma das mais danosas expressões do fundamentalismo cristão na atualidade. Leem a Bíblia como os muçulmanos leem o Corão. Para estes, não se admite que a fé cristã possa passar por processos de iluminação e expansão, no que diz respeito à sua expressão. Para estes, não se admite a Revelação como algo dinâmico, mas a "palavra de Deus" está presa a um passado distante, acorrentada a uma era completamente alheia a nossas questões e dificuldades. Mas analisemos mais detalhadamente essa questão.

Algumas alternativas


Ekkehardt Mueller escreveu recentemente um interessante artigo na revista Ministério sobre o lugar da Bíblia para a vivência da fé, intitulado "Quando a Bíblia Silencia". Nele se avalia pelo menos quatro posturas dos cristãos para com a Bíblia, quando diante de questões atuais:  


1. Primeira postura: "O que não é proibido pela Bíblia, é permitido". Nesse ponto se avalia até que ponto estaremos presos ao que a Bíblia diz, quando percebermos que há coisas referentes a vida cristã que nunca foram tratadas pelos autores bíblicos. Aqui se poderia referenciar a fala de Lutero em resposta a uma pergunta sobre a obrigatoriedade do uso das vestes eucarísticas e do erguimento da hóstia pelos clérigos de seus dias.  Karlstadt perguntou: "Onde Cristo ordenou erguer a hóstia e exibi-la ao povo?". Ao que teria respondido: "Onde Ele proibiu?". E afirmou em seguida: "O papa transgride quando ordena; e os sectários, quando proíbem". Desse modo, Lutero considerou como assuntos "indiferentes" quando se trata de coisas que as Escrituras não especificam. Esse chamado "princípio normativo" é seguido pela Igreja Anglicana. 

2. Segunda postura: O que não é permitido pela Bíblia, é proibido. Sob essa premissa, Mueller cita algumas posturas rígidas de alguns grupos como os Amish que baniram a eletricidade, ou os puritanos que baniram os órgãos de suas igrejas porque não são mencionados nas Escrituras. Thomas Campbell, do Movimento de Restauração teria dito que "Onde as Escrituras falam, nós falamos; onde elas silenciam, nós silenciamos." Todavia o autor mesmo menciona a falácia dessa fala de Campbell, que teria adotado várias atitudes em sua igreja que a Bíblia não menciona, como horários para reuniões, orientações para a guarda do domingo, etc... Essa abordagem, chamada de "regulativa", foi seguida especialmente pelos puritanos.

3. Terceira postura: Mediação entre as duas abordagens. Essa postura se classifica como uma busca de mediação entre as duas correntes.  A postura de Karlstadt pode ser um exemplo. Ele às vezes ampliava o que as Escrituras estabeleciam. Ao mencionar o cuidado das "viúvas", ele acrescentava a palavra "viúvos", pois isso era entendido como algo aberto. De modo que ele se prendia as Escrituras, embora as ampliasse conforme o contexto permitia. 

4. Quarta postura: Busca de princípios orientadores. Nesse ponto Mueller estabelece o que ele mesmo entende como o ideal no trato das questões em torno da vivência da igreja. Sempre quando diante de uma questão, o crente deve buscar com oração, "princípios" das Escrituras que podem orientá-lo numa tomada de decisão. Mueller menciona o princípio da saúde, com base em Paulo. Quando Paulo orienta quanto a santidade do corpo em 1Co 6, automaticamente esse princípio se aplicaria hoje na abstinência do fumo, das drogas e do álcool, uma vez que são agressivos para a saúde. Ao ver de Mueller, no uso dessa postura, até mesmo Jesus se portou assim. Quando questionado sobre o divórcio Ele mencionou a frase de Gênesis 2:24, que estabelece o casal como sendo "uma só carne", o que o levou a uma dedução: "Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem" (Mt 19:6). Desse modo, o que Jesus fez foi avaliar uma questão à luz de um princípio por traz de uma declaração do autor sagrado.

Como Mueller, creio que a última abordagem é a mais adequada. Assim agia Paulo e assim também o fazia Cristo.

Vivendo a fé bíblica "depois da Bíblia"


Pesquisando um pouco acerca da teologia latino-americana, hoje dei de cara com um pensamento do grande teólogo Juan Luis Segundo, que apesar de seguir outro ramo teológico,  me deixou iluminado quanto a esta questão. Cito:
"A Palavra de Deus não dá receitas históricas para iluminar a práxis: não podemos tirar uma só palavra do Evangelho para resolver um problema atual. O que nos ajuda na fé a resolver os problemas atuais é passar pelo processo inteiro. O Evangelho é educativo. Nele acontece algo semelhante ao que ocorre na educação: é evidente que nenhum de nós concebe a educação como uma aprendizagem de respostas já feitas [...] educação supõe passar por experiências diferentes, tentando compreendê-las e tentando ver o que se exige, em cada circunstância diferente, para alguém que seja capaz depois de colocar-se frente a problemas novos e ser suficientemente criativo para resolvê-los, apesar desse problema nunca ter-se apresentado antes. É o que eu me referia como dar tempo e energias à teologia não como uma aprendizagem de primeiro grau, isto é, como uma aprendizagem de respostas, mas como um aprender a aprender, o que assegura que, ainda depois da Bíblia, o cristão continua aprendendo, continua esse processo pelo qual a história mesma vai lhe ensinando." - SEGUNDO, Juan Luis . “Condicionamientos actuales de la reflexión teológica en latinoamérica.” VV.AA. Liberación y cautiverio. Encuentro latinoamericano de teología de Mexico. Mexico, 1975, p.100.


Eu sei que essa fala de Segundo é um golpe doloroso para aqueles que se enquadram no fundamentalismo religioso.  Se de fato, apenas o que está escrito na Bíblia deve regular a vivência da fé, estaremos diante de problemas o tempo todo.  A dificuldade na fala de Segundo jaz na afirmativa de que nem "uma só palavra do evangelho" pode ser ser tirada para resolver  um problema. Mas ele é sábio quando diz que o evangelho nos educa para que sejamos capazes de quando diante de dificuldades, possamos de modo "criativo" resolver "problemas novos" , apesar desse problema (sic) "nunca ter-se apresentado antes". De fato, ele fala de resolução de um problema "atual". E grosso modo, cada questão será sempre nova, cada qual em seu contexto particular, ainda que aparentemente, sejam semelhantes. Todavia, a Bíblia poderá nos educar, nos apontar seus princípios, suas referências morais que devem ser sempre interpretadas à luz de cada questão diante de nós.  


Considerando tudo...


Desse modo, cuido que a fé, como expressão doutrinária não se prende à Bíblia apenas, embora esteja subordinada a ela, e medida por ela. Mas de fato, poderá - e deve - ser contextualizada em cada processo histórico, alcançando novas dimensões. Nesse caso, a igreja sempre estará a elaborar documentos para que diante de questões sociais novas, o povo cristão da atualidade seja incluído no debate e participe das questões de seu tempo, sempre em renovação. O Manual da Igreja seria um desses documentos autorizados para a igreja.

Mas alguém poderia questionar: Qual seria a diferença entre esses documentos e a Bíblia? Estariam eles no mesmo nível? 

Respondendo, a diferença entre os documentos elaborados pela igreja e os escritos sagrados da Bíblia, é que ela - a Bíblia - se torna o crivo pelo qual todo documento ou fala da igreja deve ser analisado. Desse modo se compreende a afirmação de que ela se torna a "norma da fé", o "cânon", a "vara de medir", a "regra de fé e prática". 

Lembrei-me por acaso de uma fala de meu antigo professor, o Dr. João Antônio R. Alves, em uma Classe de Daniel e Apocalipse, nos meus dias de Seminário. Ele teria dito algo mais ou menos assim: 
"A Bíblia é o fundamento de tudo. E sobre esse fundamento, podemos construir, desde que no processo, não se abale o fundamento. Algo estará errado quando se derruba o fundamento para edificação de algo novo."
Sabiamente, o professor queria com isso dizer que não precisamos silenciar outras vozes para a compreensão e a vivência da fé. Mas com novos discursos, tendo os princípios da Bíblia como base, podemos edificar novas coisas, na construção do grande edifício da fé.  Nem tudo está na Bíblia. E o processo da Revelação será dinâmico na vida da igreja.


A boa conselheira Ellen White foi muito sábia quando disse acerca da autoridade da igreja quando esta se pronuncia de modo representativo, numa convocação para de  todos os representantes de cada da igreja, no modelo da igreja dos apóstolos (ver At 15), como Assembleia Geral:

"Deus investiu a Sua Igreja com especial autoridade e poder que ninguém pode ser justificado a desconsiderar e desprezar, pois quem faz isso despreza a voz de Deus". - WHITE, Ellen G. Atos dos Apóstolos. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, SP, 2000, p. 164.

Como disse o velho e bom Juan Luiz Segundo, que sempre foi um teólogo inquieto: Nosso aprendizado vai além da Bíblia. E mesmo fora dela, ainda vamos aprendendo com as coisas que a vida - ou mesmo a História - vai nos ensinando, até que adentremos os portais da Eternidade. [Claudio S. Sampaio]

Apêndice:


Para download da mais recente edição do Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia: http://www.adventistas.org.pt/quem-somos/manual-de-igreja

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http://pastorclaudiosampaio.blogspot.com 
disponível para compilação, desde que a fonte seja citada


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