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A Carne Como Alimento: Ellen White, Adventismo e a Busca do Equilíbrio.




por Claudio S. Sampaio

“À medida em que o tempo passa, mesmo os profetas devem tomar tempo para assimilar os princípios revelados, tempo para que a teoria se torne prática em sua própria vida.” - Herbert E. Douglas.

Tenho recebido vários comentários acerca da matéria “Ellen G. White e a prática do vegetarianismo”, publicada neste blog 12 de maio de 2010 (leia aqui). Achei-os muito oportunos e agradeço aos colaboradores, que são irmãos amados, pertencentes à Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), da qual sou Pastor. Em especial destaco a opinião do Odailson Ribeiro:

“Só não entendo porque de tanta resistência em nosso meio a uma mensagem tão clara e límpida como esta!!!” (sic).

Para este leitor, eu também digo que um tema exposto deste modo aparentemente tão claro, com base nos escritos da profetisa Ellen White deveria ser aceito com mais vigor, por nossos membros Adventistas. E mesmo uma grande maioria daqueles que se abstêm da carne, ainda não conseguiram viver este assunto do modo claro como exposto no artigo mencionado, o qual ocupa o espaço do site do Centro White. Graças a Deus, porém, um bom número de adventistas entende e vive este assunto de maneira equilibrada, tal qual a igreja tem sustentado no presente, como exposto no Manual da Igreja Adventista:

"A Igreja aceita sua responsabilidade de revelar Cristo ao mundo e crê que isso inclui a obrigação moral de preservar a dignidade humana, alcançando ótimos níveis de saúde física, mental e espiritual. Além de ministrar aos enfermos, essa responsabilidade abrange a prevenção das enfermidades mediante eficiente educação sanitária e direção adequada para promover a boa saúde, livre do fumo, álcool e outras drogas, e de alimentos imundos. Onde for possível, os membros serão incentivados a adotar um regime alimentar essencialmente vegetariano". Manual da Igreja, 2010, pág. 115.

Mas o problema é que esta dita clareza nem sempre é percebida e tudo se complica. Há posturas relaxadas e extremistas e este tem sido o grande problema. Para uns, deveria ser obrigatório a abstinência da carne pelos adventistas. Para outros, este tema é até mesmo detestado. Ambos estão em desequilíbrio. Há até os militantes pela abstinência da carne como alimento, e entendem que isso é uma guerra, na qual haverá vitoriosos e vencidos (ver os comentários na matéria mencionada). O problema é que guerras sempre deixam feridos e mortos pelo caminho.

Sou propenso a concordar com a ideia de que a rejeição deste tema (que para alguns é tão claro e límpido) por grande números de adventistas tem sido ao mais das vezes, por conta de boa parte daqueles que têm tornado este assunto o centro de sua vida, e vivem em constante espírito de suspeita para com alguns irmãos que ainda não aderiram ao seu estilo de vida. Para um leitor, a sugestão de que se poderia viver na abstenção do alimento cárneo e cometendo piores "pecados", como esse clima de suspeita deveria ser descartado. Eu não creio assim. Isso porque se somente pelo fato de me abster da carne me faz sentir superior a meus irmãos, é bem melhor que eu continue comendo, mas sentindo dependência deles, na esfera da comunhão com Deus. Nem todos concordam, mas fica a observação.

Ellen White


Quando entendemos que até mesmo para Ellen White, que recebeu essa luz, esse passo foi dado de modo progressivo; e que mesmo dando o passo lentamente, recusou a estabelecê-lo como uma prova de discipulado; e que recusando a estabelecê-lo deste modo, deixou claro que jamais teria recebido do Senhor uma ordem sobre uma dieta obrigatória neste sentido (ver adiante, a cita), então – e só então – podemos perceber o porque da busca do equilíbrio na exposição oficial deste tema pela igreja, conforme exposto no Manual.

Para quem não saiba, a IASD  recomenda a dieta vegetariana como o ideal e melhor para o ser humano, e especialmente para o cristão Adventista. E nisso ela tem dado um passo além. Tem tomado votos para o território da igreja na América do Sul para que em programações oficiais da igreja não sejam servidos alimentos cárneos. Até mesmo tem ensinado, por meio da Lição da Escola Sabatina e por outros meios diversos sobre a bênção do alimento vegetariano. Em nosso programa Seminário de Enriquecimento Espiritual 2, por exemplo, cujo tema foi "Saúde e Adoração", há uma busca da igreja em orientar seus membros a adotarem a dieta vegetariana com equilíbrio. Em nossa revista Adventist World, que acompanha gratuitamente a assinatura da Revista Adventista, há uma seção mensal na qual se orienta, por meio de autoridades na área da teologia e da saúde sobre o devido cuidado com a alimentação e a saúde. Recentemente, por exemplo, houve até mesmo uma matéria na qual se quebrou o mito da necessidade da carne em nossa mesa, e o da obrigatoriedade do uso do peixe para uma dieta equilibrada. O ponto nevrálgico em torno da questão é a fala do Manual: "Onde for possível, os membros serão incentivados a adotar um regime alimentar essencialmente vegetariano". 

Desse modo, entendemos que a busca da saúde deve ser o princípio maior que deve nortear a questão da alimentação de nossos irmãos, e não a abstenção da carne em si mesma. Evitamos por isso discursos radicais, como aquele que estabelece este assunto como definitivo na questão que envolve a salvação de nossos irmãos.

Confrontando o Radicalismo


Entender que o uso da carne impediria alguém de herdar a Eternidade seria o mesmo que lançar parte da culpa da perdição de parte da Humanidade sobre os ombros de Deus. Afinal, se houve alguma mudança em nosso regime isso foi pela decisão de Deus, conforme a própria Escritura afirma (cf. Gen. 9:3-4). Sendo um pecado o uso da carne como alimento, seria então Deus o responsável pela queda de muitos. Por isso, entendemos que o não comer carne entra em um processo que envolve mais uma busca pela excelência, que uma superação de um problema de ordem moral (digo isso, de modo geral; há exceções: cada qual sabe de si).

Em todos os contextos em que a Igreja Adventista afirma o apelo para a abstinência da carne e de outros alimentos não proibidos pela Escritura entra na questão do cuidado da saúde e do corpo.

Talvez o cerne do debate seja a prática da leitura radical dos Escritos de Ellen White, profeta e co-fundadora do movimento adventista. Muitas passagens têm sido tomadas fora do contexto maior, gerando dificuldade na verdadeira compreensão do tema. Mas em certa ocasião, Ellen mesmo disse que

“Nunca julguei ser meu dever dizer que ninguém deveria provar carne, sob quaisquer circunstâncias. Dizer isto... seria levar ao extremo a questão.” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pp. 462, 463).
“O regime cárneo não é o mais são, e, todavia, eu não tomaria a atitude de que ele deva ser rejeitado por toda pessoa” (Idem, p. 395). 

E sendo a abstenção da carne como alimento uma exigência para a salvação, como considerar o conselho:

“Em certos casos de doença ou exaustão, poderá ser considerado melhor usar alguma carne, mas grande cuidado deve ser tomado para adquirir carne de animais sadios. Tem chegado a ser questão muito séria se é seguro usar de algum modo alimento cárneo nesta época do mundo. Melhor nunca usar carne, do que usar a carne de animais que não sejam sadios. Quando não me foi possível obter o alimento de que necessitava, comi um pouco de carne algumas vezes; mas estou ficando cada vez mais atemorizada de fazê-lo.” (Ibidem, p. 394).

Contudo, apesar dessas observações de Ellen, muitos têm caído no extremo da questão e insistem que o não comer carne é uma prova de discipulado, algo que nem Deus, nem os Apóstolos nem a própria Ellen estabeleceu. Em 1909, em sua última aparição pública, cerca de 46 anos depois da revelação sobre a Reforma de Saúde, tempo em que ela mesma teria retirado de modo completo o uso da carne de sua mesa, ela teria declarado em seu ultimo discurso à Assembleia da Associação Geral da Igreja Adventista, composta dos principais líderes e delegados da IASD em todo o mundo:

“Não estabelecemos regra alguma para ser seguida no regime alimentar, mas dizemos que em países em que há muitas frutas, cereais e nozes, os alimentos cárneos não constituem alimentação própria para o povo de Deus” (Testemunhos para a Igreja, vol. 9, p. 159).

Se de fato, a abstinência de carne deveria ser estabelecida como obrigação de todos, seria uma boa ocasião para deixar isso claro, uma vez que todos os principais líderes e representantes da igreja na esfera mundial estavam presentes: Era uma reunião da Associação Geral. Porém, notemos que ao tratar da abstinência da carne como alimento, ela escreve sobre um ideal, mas se nega a estabelecer o assunto como uma regra definitiva. O que entendemos, a partir daí, é que assim como todo cristão adventista vegetariano que hoje alterou seu estilo de vida, através de um processo (nem todos vieram vegetarianos para a igreja) e teve desse modo, seu tempo de crescimento nesta área, haverá outros que avançarão também neste processo. Outros não avançarão nesta área, mas crescerão em outras. Para alguns, a carne é um problema, para outros não é, cada qual sabe de si. Para uns, será uma exigência, para outros, não será, cada um sabe de si e Deus de todos.

Concluindo


Finalizo declarando que à luz do exposto, que para muitos, o assunto nem sempre parece tão claro, como o amado irmão expôs. Declaro também que nem nos dias de Ellen White nem em nossos dias a IASD estabelece a adoção do vegetarianismo como uma prova por não dispor desta autoridade diante de Deus e Sua Palavra. Agir deste modo em nosso movimento se assemelharia ao ato de instituir a exigência do celibato, dentro do Catolicismo. É fácil tomar alguns textos isolados dos escritos de Ellen White e desconsiderar as declarações abertas sobre o caso e ditar um discurso extremista. Essa atitude cai sempre em um de dois extremos: ou se estabelece um falso caminho beirando a farisaísmo com ares da heresia do perfeccionismo ou, por outro lado, se cria uma rejeição maior pela mensagem original por parte daqueles que ainda estão engatinhando na fé ou à parte do processo.

Ainda: digo que o uso da carne tem sido considerado entre nós como uma exceção e não uma regra, e assim Ellen considerava também. Deus nos orienta a não fazê-la nosso alimento principal pelo fato de que chegará o tempo em que Ele mesmo a tirará de nós. E neste tempo presente, quem não usa deste tempo de graça para se educar neste sentido, possivelmente cairá, quando provado.

Façamos como Ellen: Adotemos para nós o estilo, testemunhemos dos benefícios e deixemos os demais com sua consciência diante de Deus. Deus sabe a condição e as circunstâncias de cada caso. Todos aqueles que um dia chegaram a este esclarecimento também tiveram uma caminhada, como a própria Ellen teve. A paciência que o Senhor teve com estes devem também eles viver em relação a seus irmãos. Jamais o nosso crescimento em uma área deveria nos colocar a nossos próprios olhos como se em melhor situação que nossos irmãos. Eles também terão avançado em seu próprio caminho diante de Deus.

Deus guia a todos dentro de suas necessidades próprias, provendo sabedoria e discernimento. Avancemos unidos, ombro a ombro, na mesma esperança. E fica a dica de Paulo:

"Um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come, e o que não come não julgue o que come, pois Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julga o servo alheio? Para seu próprio senhor ele esta em pé, ou cai. E estará firme, pois poderoso é Deus para o firmar." Romanos 14: 2 – 4.

Por enquanto é só. Graça e paz! - [Claudio Soares Sampaio]


http://pastorclaudiosampaio.blogspot.com 
diponível para compilação, desde que a fonte seja citada

3 comentários:

  1. Parabéns pelo equilíbrio. Estou cansado de ler textos fanáticos e Liberais....Glória a Deus pelo equilíbrio que lhe deu ao escrever.

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  2. Muito bom. Sei que o ideal para cada um de nós é o vegetarianismo. Mas isso não é regra de fé, muitos vegetarianos querem impor aos demais a sua escolha, exibem como se fosse o "sinal de Deus", acham que são melhores do que os que ainda comem carne, deveriam é fazem uma entrega total a Deus, se fosse inteiramente ligados a Deus veriam que Deus não os designou para julgarem os demais e sim para serem irmãos uns dos outros.

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  3. Muito esclarecedor , infelizmente em todos os tempos tem fanatismo religioso,eu hoje falava sobre isso com alguém vegetariana é ela apontou o dedo na minha cara e disse muita coisa , fiquei triste, mais lendo esse tema me ajudou muito.

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