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Lenda: O Perdão Segundo Jorge Luiz Borges





Há alguns anos li "Elogio da Sombra", o magistral livro de Jorge Luiz Borges, nobel de literatura, que trazia belos poemas sobre a busca do autor pela serenidade diante das dificuldades da vida, como a fatalidade da cegueira que bem cedo o acometeu. Um dos poemas inesquecíveis daquele volume, para mim, foi a prosa poética "Lenda", que retratava um reencontro fictício entre Caim e Abel, os dois irmãos filhos de Adão e Eva, da narrativa bíblica, contida em Gêneses capitulo 4. O desenvolvimento da ideia sugere a bênção do perdão, pelo qual é possível a reaproximação de dois irmãos, a da serenidade e paz possível a quem perdoa, e além disso, da verdade acerca do que significa a palavra "perdoar". O interessante é que o autor era um filólogo, mas acima de uma busca do sentido linguístico, Borges trata do sentido espiritual que o tema engloba.

Para melhor entender a grandeza do texto, com o tom peculiar de Borges, ei-lo abaixo. Deixo para apreciação este texto magnífico, eivado de referências ao conteúdo do evangelho. Que nos faça refletir sobre o tema e a buscar a paz que é possível àquele que perdoa e a quem é perdoado. (Claudio Sampaio).



Lenda


-Jorge Luiz Borges.

Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome. À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime.

– Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu. – Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

– Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim –, porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.

– É assim mesmo – Abel falou devagar. – Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

- Jorge Luis Borges in “Elogio da Sombra”

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