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Paixão Pela Verdade ou Conivência com a Mentira?


O filme O Mentiroso (1997) protagonizado por Jim Carrey contava a história de um advogado (Carrey) que utilizava-se da arte da mentira todos os dias em sua profissão, mas sofre a maldição de não poder fazer isso durante um período de 24 horas. Nesse caso, sendo alguém que não sabia fazer uso da verdade, o personagem acaba se metendo em várias dificuldades. O filme é apenas uma paródia sobre aqueles que tanto se deixaram levar pelo hábito da mentira a ponto de não conseguirem mais afirmar a verdade. Embora a história seja fictícia, expressa uma verdade atual.

Em 1993, um homem recorreu à Justiça afirmando que o cantor Michael Jackson abusou de seu filho, Jordan Chandler, de 13 anos. O caso se tornou um escândalo de proporções mundiais, mas acabou resolvido fora dos tribunais, num acordo que envolveu cerca de US$ 22 milhões. Na ocasião, quando a notícia foi divulgada, Michael estava em uma  tournê  de seu show "Dangerous", que foi cancelada imediatamente. Michael, misteriosamente, desapareceu. Meses depois, foi noticiado que o astro foi encontrado em uma clínica de reabilitação para superação de uma suposta dependência de remédios.

Esse caso judicial ficou conhecido na mídia como sendo o "Caso Chandler. Michael foi absolvido porque Jordan não testemunhou. Todavia, vida e a carreira de Michael nunca mais foram as mesmas depois disso. Ficaria para sempre marcado como um abusador de menores.

Talvez movido por remorso, depois da morte do astro (2009), surgiu na rede uma notícia de que Jordan Chandler teria declarado à imprensa que tudo não passou de mentiras. Ele teria afirmado: "Michael Jackson nunca me molestou. Lamento, Michael".  Ele teria sido influenciado pelo pai, que se via magoado pela ideia de que Michael estava sendo objeto da afeição de seu filho -- afeição esta que desejava para ele. Na biografia de Michael escrita por Randy Taraborrelly, intitulado "A Magia e a Loucura", há uma declaração do autor, afirmando a preocupação de Evan Chandler, pai de Jordan, diante da influência de Michael sobre seu filho, que na época vivia apenas com a sua mãe. Outra versão, menos plausível, afirma que Evan se sentia magoado pela rejeição de Jordan para uma participação em um filme envolvendo o pop star. Evan Chandler se matou em 2009, com um tiro na cabeça, meses após a morte de Michael. Alguns cogitam remorso, mas enquanto vivo, Chandler  nunca admitiu que havia mentido, em relação ao fato. Porém, vale dizer que na atualidade, não há mais dúvidas de que tudo não havia passado de uma calúnia lançada sobre o rei do pop.



Essa história expressa bem o ponto que busco avaliar nesta reflexão. Estamos em um tempo saturado de mentiras, de pessoas viciadas na mentira e por isso, as instituições estão, em sua maioria, falidas. Mesmo os ministros religiosos e as igrejas não escaparam e a cada dia perdem mais credibilidade diante do povo. A mentira campeia pelas ruas, surfa em ondas de rádio e nos canais de TV. Se insinua nos relacionamentos privados, nas mesas de negócio, nas assembleias legislativas e até nos tribunais dos homens. E a "verdade", por outro lado, dada a sua raridade, tem se tornado um artigo de luxo. Prova disso é que não se instituiu ainda nenhum dia dedicado à verdade, mas desde muito, temos um, dedicado à mentira.

O "Dia da Mentira"  tem sua origem na França, no ano de 1564. Até essa data, o ano novo era celebrado dia 25 de Março e suas festividades duravam uma semana, até o primeiro dia de Abril. Com a adoção do Calendário Gregoriano em 1564, o dia do ano novo passou para primeiro de Janeiro. Alguns, mais apegados às tradições, se recusaram a modificar a comemoração e prosseguiam com a antiga data. Esses eram chamados de "bobos", que no dia primeiro de Abril eram vítimas de piadas e zombarias. Alguns recebiam convites para festas que não existiam, notícias falsas e outras coisa do gênero. Este dia, chamado inicialmente de "Dia dos Bobos", com o passar do tempo, se tornou o dia dedicado à mentira, como temos hoje. Na data, há trotes de todo tipo: Costuma-se mentir que está grávida, que ganhou na Loteria, que um parente morreu, e outros.

Na verdade, não se tem apenas um único Dia da Mentira.  Pois com a frequência com que mentimos, parece que essa data se estendeu para todos os dias do ano. Mas considerando que ao se dedicar um dia a mentira, há uma institucionalização de sua prática, isso se torna problemático. Abre-se a possibilidade de que a mentira seja vista como algo inocente e válida, de acordo com a subjetividade do dia, e por consequência, da circunstância.  O que o poeta grego Epimênides afirmou sobre os cretenses, parece valer para os homens de nosso dias:

Cretenses,mentirosos,
feras malignas,
glutões preguiçosos (Tito 1:22). 

Robert Feldman, professor de psicologia da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, e autor do livro "Quem é o Mentiroso da Sua Vida?" afirma que uma pessoa mente 3 vezes a cada 10 minutos, em média. Ele também apresenta as diversa formas de mentiras que são usadas no dia a dia, muitas delas com a desculpa de melhorar o convívio social. A mais usada talvez seja a desculpa para atrasos ou faltas no trabalho.

O especialista em segurança eletrônica e autor do livro "Mentira - Um Rosto de Muitas Faces", Wanderson Castilho, reforça a tese de Feldman. Segundo ele, é praticamente impossível um ser humano viver em sociedade sem usar a ferramenta da mentira, em algum momento da vida. Ele diz:
"Quem diz que nunca mente está mentindo. Há muitos motivos para mentirmos, entre eles quando somos movidos pela vergonha ou pelo orgulho. Em outros casos, é provável que mintamos para atenuar o impacto que a verdade teria. Ou seja, mentimos para evitar magoar pessoas com quem nos importamos, ou para evitar situações embaraçosas".

Para Castilo. a mentira é uma necessidade imprescindível. Ele afirma:
"Do ponto de vista psicológico, a mentira é um ato instintivo de preservação, tal qual a dor ou a febre são do ponto de vista fisiológico. Sem ela a sociedade entraria em colapso. Imagine um marido que tem muitos amigos e habitualmente toma as decisões sobre como usar o tempo livre. Se a mulher não quiser acompanhá-lo poderá recorrer a uma desculpa qualquer, como trabalhar até mais tarde, para se livrar do compromisso, sem magoar quem ama".

Mas vale perguntar: Esse caminho deve ser aceito pelos cristãos? O que a Bíblia teria a dizer sobre a mentira e os mentirosos? Avaliemos pelo menos 5 pontos:

1. Nas Escrituras, há a afirmação de que apenas Deus é verdadeiro, mas todo homem é mentiroso (Rom 3:4). O sentido primário do texto citado é que quando alguém afirma que é perfeito cumpridor da Torah, e Deus o declara pecador e imperfeito, a verdade está em Deus e não no homem. Mas de fato, a mentira é algo inerente do pecador em sua situação de pecado. Mas quando se trata de um crente renascido, ele deixará a mentira e se apegará à verdade, pois como seguidor de Jesus, ele deve romper com as trevas de forma definitiva.

2. Nas escrituras, não há nenhum tipo de abertura para um pacto da verdade com a mentira. Não se pode dizer que haja algo como "meia verdade". O Salmista pedia: "Afasta de mim o caminho da mentira. [...] odeio e aborreço a mentira" (Sl 119: 29, 163). Paulo dizia: "...deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo" (Ef 4:25).  Por outro lado, aos judeus Jesus disse que o Diabo mentia o tempo todo, pois é o Pai da Mentira e nunca havia se firmado na Verdade (Jo 8:44). E Ele, Jesus, que se dizia a encarnação da Verdade divina, disse acerca do Diabo: "Ele nada tem de mim" (João 14:30). Sansão, ao contrário, tanto brincou com a verdade e tanto fez uso da mentira, que cedeu à tentação, pagando o preço de sua loucura, na traição de Dalila. A lição que permanece é que mesmo em forma de brincadeira, não há nenhuma abertura na Palavra de Deus para a prática da mentira.

3. Nas Escrituras,  a mentira e a verdade são duas forças antagônicas no mundo. Em sua carta aos tessalonicensses, Paulo faz um contraste entre aqueles que não aceitaram o amor à verdade para serem salvos e os que preferiram a mentira.  Sua conclusão é que Deus "envia" o espírito da mentira para que o homem tenha sua opção aberta para escolher. Se não acolherem a verdade, darão ouvidos à mentira, para sua perdição. Nas Escrituras, o desejo divino é a salvação do homem, por isso, envia sua verdade salvífica. A opção humana, em sua perversidade, é que põe tudo a perder (2Tes 2:9-11). Por isso, diante da verdade e da mentira, todos temos de tomar o partido de um destes lados. Não há ponto neutro: ou somos pela verdade ou em favor do engano.

4. Nas Escrituras há uma condenação de Deus contra a mentira. Há a afirmação de que Deus destruirá os mentirosos (Sal 5:6). Também diz que "O Senhor odeia os lábios mentirosos, mas se deleita com os que falam a verdade" (Prov 12:22). No fim, todo mentiroso será lançado do monte de Deus e perecerá no lago de fogo (Apoc 21:8). Não apenas quem ama mas quem pratica a mentira. O amor á mentira é percebido naqueles que mesmo conhecendo a verdade de Deus, optam pelo engano de forma consciente. A verdade, no tempo presente tem seu preço. Muitas vezes, por amor a ela, tem se pagado com a própria vida. A mentira, neste momento presente, por outro lado promove alegria e às vezes, livramento momentâneo. Mas, de fato ela "tem pernas curtas". Não vai muito longe. Além de consciências manchadas, vidas prejudicadas, chegará o dia em que mentira e mentirosos serão destruídos.

5. Nas Escrituras, somos chamados a seguir a verdade, em amor (Efe 4:15). Na batalha espiritual, devemos manter a firmeza, cingindo-nos com "o cinto da verdade" (Efe 6:14). Os 144.000 remidos e selados que se encontram no Monte Sião, na presença de Deus, são descritos por João como aqueles que na sua boca não têm engano (Apo 14:5).

O Salmista, como alguém  que amava a verdade, rogava a Deus: "guia-me com a tua verdade e ensina-me" (Sal 25:5). Ele também pedia:
Envia a tua luz e a tua verdade;
elas me guiarão
e me levarão ao teu santo monte,
ao lugar onde habitas (Sal 43:3).
Na compreensão do autor sagrado, apenas a verdade conduz ao santo monte, a Sião, lugar da habitação de Deus. Jesus confirma a bênção de Deus sobre aqueles que  praticam a verdade quando disse: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8:32). A História está eivada de exemplos de pessoas que amaram a verdade acima da própria vida. Os Reformadores deixaram um exemplo digno. E entre eles, destaco a história de John Huss.



John Huss era um homem bastante instruído. Depois de terminar sua educação básica, Huss alcançou o título de mestre em Filosofia no ano de 1396, pela Universidade de Praga (capital atual da República Tcheca), e começou ensinar na mesma Universidade dois anos depois, vindo a ser seu Reitor, em 1401. Já em 1400, Huss foi separado como sacerdote e recebeu a responsabilidade da prestigiada Capela de Belém. Após o casamento de Ricardo II, da Inglaterra, com Ana, filha do imperador Carlos IV da Boêmia em 1382, os ensinamentos do Reformador inglês Wycliff foram logo introduzidos no país. Estudando-os bem de perto, Huss começou não só a pregar, como também traduzir as obras de Wycliff na língua Tcheca, promovendo as ideias da Reforma na Boêmia.

No ano de 1403, já convicto das ideias apreedidas, Huss se propôs a reformar a Igreja Romana na Boêmia, ensinando que o papado não tinha nenhuma autoridade de oferecer a remissão dos pecados através da venda de indulgências, além de questionar a legitimidade dos dois papas rivais Gregorio XII e Alexandre V, que ocupavam o posto no mesmo período. Por esta razão, em 1408, o clero e os docentes da Universidade de Praga o condenaram, e o proibiram de exercer suas funções eclesiásticas em Praga. 

Um ano depois, Huss recebeu a acusação de promover heresias. Todavia, isso não o intimidou, de modo que prosseguia em suas pregações na Capela de Belém. Em 1411, o Reformador foi excomungado, e todos os cultos, cerimônias de batizado e funeral que havia realizado foram anulados. Este ato trouxe grande revolta nos cidadãos de Praga, os quais defenderam a Huss. O cúmulo da corrupção papal sucedeu em 1412, quando João XXIII lançou uma cruzada contra o Rei Ladislau de Nápoles, e ofereceu a remissão completa de pecados a todos os que participassem na guerra, ou a venda da indulgência para os que a suportassem. Ao ouvir tal notícia contrária a todos os preceitos bíblicos, Huss se levantou e atacou o papado de usar sanções espirituais e indulgências para fins pessoais e políticos. Em contra-ataque, John Huss foi também excomungado de Roma e obrigado a deixar a cidade de Praga.

Durante o seu exílio, Huss teve a oportunidade de concluir uma de suas obras mais importantes, “De Ecclesia”. No ano de 1414, os líderes da Igreja Romana se reuniram para um Concílio em Constança (atualmente na Alemanha), e John Huss foi convocado a comparecer a fim de esclarecer seus ensinos contrários ao da Igreja. O imperador Boêmio, Sigismund, prometeu salvo-conduto, mas, após um mês em Constança, os seguidores do Papa João XXIII o prenderam, e ele foi impelido pelo Concílio a se retratar. Huss permanceceu preso durante os sete meses de seu julgamento, e pouca oportunidade foi-lhe dada de se defender. Por não voltar atrás, o Reformador foi condenado como hereje, sendo despido de suas vestes, e após uma execração pública, foi queimado na estaca fora da cidade no dia 6 de julho de 1415. 

Huss morreu cantando o hino em grego “Kyrie Eleeson” ("Senhor, Tem Misericórdia"). O local de sua morte é marcado até os dia de hoje com uma pedra memorial. Tal qual Wycliff, John Huss amou a verdade das Escrituras, pagando o preço com sua própria vida. Os perseguidores destruíram o corpo, mas não os ensinos de Huss. Estes foram disseminados por toda a Europa por seus discípulos mais radicais, conhecidos como Taboritas. Estes prosseguiram no amor à verdade bíblica e rejeitaram tudo na fé e na prática de seus dias que conflitava com a Bíblia. Destes discípulos surgiu a Igreja Moraviana, a qual tornou-se mais tarde em uma das igrejas de maior visão missionária da história da Igreja. A História testifica do impacto missionário dos "Irmãos Morávios". O resultado do trabalho de John Huss e de tantos outros amantes da Verdade pode ser visto século depois, na pessoa de Lutero. E digo mais: Pode ser visto também na vida de todos aqueles que amam a verdade e estão dispostos a pagar o preço pela sua lealdade a ela.

Há, na atualidade, a ideia de que Deus não possui uma verdade objetiva. Para quem acredita assim, qualquer verdade basta, pois ela vem de sua subjetividade, de sua própria avaliação pessoal, que pode escolher a convicção que melhor lhe convier. Outros, estão satisfeitos com as "meias verdades", que no fundo, são apenas mentiras disfarçadas. Todavia, somos desafiados a orar como o Salmista:  
Envia a tua luz e a tua verdade;
elas me guiarão
e me levarão ao teu santo monte,
ao lugar onde habitas (Sal 43:3).

Hoje, neste mundo impregnado de mentira e já descrente da verdade, somos chamados por Deus a encontrar a liberdade, por meio de nosso apego a verdade. Que façamos isso.- [Claudio Sampaio].

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