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Crônica Feliz


CRÔNICA FELIZ

Era mais ou menos 2h00 da madrugada de 25 de Dezembro quando Jhon parou seu veículo frente a lanchonete de um posto à beira da rodovia MG-040. O sono o afligia. Havia rodado mais de 500 kilometros desde que saíra de casa, por volta das 15h00 do dia anterior e agora, de repente, se via terrivelmente cansado. 

Precisava lavar o rosto, usar o banheiro, esticar as pernas - despertar. Sim, era preciso acima de tudo, despertar, pois ainda havia muito chão pela frente até chegar ao destino, a casa dos seus pais que o aguardavam para a Ceia, numa pequena cidade do Norte Mineiro.

Enquanto parava o veículo, John pensava na tolice de haver saído tão tarde de casa no dia anterior para rodar cerca de 1.000  kilometros. Poderia ter dormido em casa na noite de 24 e iniciado viagem naquela madrugada de 25. Daria na mesma. De todo modo, nunca chegaria a tempo para a Ceia com a família. 

Viajava só. A esposa e a filha já haviam pegado um vôo e seguido adiante, alguns dias atrás. Naquele momento ambas certamente estariam reunidas com os familiares em torno da mesa, numa pequena cidade na fronteira com o DF. Foi preso a estes pensamentos que John concluiu que talvez fosse a solidão que tornava ainda mais cansativa aquela longa viagem.

Saiu do carro e recebeu uma lufada de vento frio que o fez encolher-se. Sempre fora muito friorento. E o céu fechado e ausente de estrelas anunciava a presença da chuva, que havia caído instantes antes e ameaçava cair de novo a qualquer momento. 

Levantou os olhos buscando localizar o banheiro, e foi nesse momento que percebeu o pequeno vulto. Estava sob a marquise na lateral esquerda do prédio, deitado sobre um pequeno cobertor surrado e sujo, estendido no chão como uma cama improvisada. Sob a cabeça, como um arremedo de travesseiro, trazia uma velha bolsa de nylon preta, surrada e encardida. Jazia encolhido, numa posição fetal, como se buscasse no próprio corpo descoberto, um refúgio do vento frio da noite. Ao seu lado, um pequeno vira-latas de pelagem branca dormia enroscado, com aquela  paz possível somente aos bichos, numa madrugada fria de Natal como aquela.

O coração de John se sensibilizou com aquela visão. Numa noite em que a maioria das pessoas que não estivessem na estrada como ele tolamente se encontrava estariam reunidas em torno da mesa, celebrando alegrias e conquistas, o que teria levado aquela pobre alma a uma situação deplorável como aquela? Abandono? Vícios? Não sabia.

Enquanto rumava para o banheiro, Jhon pensava em como deveria lidar com aquela situação inusitada. Ignorar não podia. Era a visão de irmão de caminhada, alguém solitário e com frio, e possivelmente com fome. Além disso, era Natal. 

E foi neste momento que Jhon se lembrou daquelas lendas que havia aprendido de seu pai, nos seus dias de menino. Histórias que falavam de Jesus misteriosamente visitando os lares, travestido de mendigo, testando a caridade das pessoas. Recordou também da história de Francisco, que se irmanou com os pobres de Assis e que celebrava o Natal com os mendigos, proletários e segregados da Itália. Lembrou-se inclusive do próprio Cristo, que desde menino, se fez pobre entre os pobres, e sempre acolhia os miseráveis que dele buscavam ajuda. Pensando em tudo isso, Jhon se convenceu de que de fato, precisava fazer algo. 

E foi assim que no momento em que saiu do banheiro, minutos depois, já sabia nitidamente o que deveria fazer. Cruzou rapidamente o espaço da calçada até a porta da lanchonete, passando pela catraca e seguindo a passos firmes até o balcão. Os três atendentes vieram solícitos, como se sentissem abençoados com a chegada de um novo cliente, para entrete-los àquela hora tediosa da madrugada de Natal. 

Após os cumprimentos iniciais de "boa noite" e "feliz Natal" Jhon se dispôs a perguntar sobre o miserável deitado sob a marquise, do lado de fora. Perguntava sobre em que dia teria chegado ao local, há quantos dias estava ali,  se sabiam quem era, se teria entrado no estabelecimento alguma vez para comer ou beber, e se era um bêbado curtindo porre, entre outras coisas.

Um dos três atendentes sorridentes se dispôs a responder. Ah, sim, sabia do mendigo. Teria chegado na manhã daquele dia mesmo, trazendo um cãozinho preso à ponta de uma corda. Não, não se lembrava sequer de uma vez que tivesse entrado na lanchonete, fosse para comer ou para beber cachaça ou outra bebida. De resto, nada sabia, nem do nome nem de onde viera. 

Jhon então perguntou se tinham comida disponível e após confirmação pediu que preparassem um bom prato, do melhor que tivessem. Fossem generosos. Era preciso alimentar aquele homem que a providência havia posto em seu caminho. Era Natal, e o comum era estar junto da família e de amigos em torno da mesa, participar de uma Ceia. Aquele pobre homem não tinha sequer uma cama para dormir. Alguém deveria ser seu irmão, pelo menos por alguns momentos, naquela noite, explicava. 

Os atendentes gostaram da proposta e de repente ficaram grandemente animados. Um se dispôs a caprichar na marmita de comida. Um outro prepararia uma dose dupla de leite quente. O terceiro, assentado no caixa, propôs que antes de vencer o plantão organizariam uma vaquinha para dar um apoio financeiro. E Jhon sorria feliz com tudo aquilo, enquanto dizia frases como  "obrigado pelo apoio", "que bom amigos", "esse é o verdadeiro espírito do Natal, não é, pessoal?" 

O farnel ficou pronto. Jhon recebeu o embrulho, passou pelo caixa, acertou o valor e agradeceu, enquanto saía, rumo ao local de descanso do homem dormindo. O cãozinho branco, de olhar muito manso mas que não era nada bobo, abriu os olhos, para logo fecha-los de novo, preferindo o refúgio do sono a se desgastar em latidos desnecessários, àquela hora fria da noite. 

De cócoras, ao lado da cama improvisada, Jhon chamou repetidamente pelo homem dormente, que apesar de abrir os olhos, parecia não ter acordado, fechando-os de novo. John elevou a voz, repetindo mais alto o chamado. De repente os olhos sonolentos se arregalaram num susto e o homem pôs um sorriso amarelo, na face coberta por uma barba rala, enquanto se assentava, recostando-se na parede. 

Jhon estava bem vestido, com sua calça e  camisa social azuis e sapatos limpos e bem engraxados. A cena percebida poderia ter constrangido o homem recém-despertado, que respondeu ao cumprimento de "boa noite" esfregando os olhos e de modo tímido. Talvez pensasse se tratar de algum responsável pelo posto, pois tentou se explicar, nervosamente. 

John o interrompeu com um sorriso. Que ficasse tranquilo. Sabia que era muito tarde e que era um bom momento para dormir. Mas é que tinha chegado há pouco e ao vê-lo descoberto e encolhido no chão, se sentiu preocupado, pois poderia estar com frio. Então pensou se não seria uma boa ideia trazer uma bebida quente, um prato de comida e um papo de amigo, antes de seguir viagem. Também estava sozinho na estrada, se explicava. 

De repente o rapaz despertado do seu sono ampliou o sorriso e seu rosto foi iluminado por um ar de alegria. E se desdobrava em  "muito obrigados" e apresentações, enquanto tomava o copo e sorvia a bebida quente em goles generosos. Logo estava bem desperto e disposto, discorrendo outros assuntos. E John percebeu que o rapaz era de fato um cara muito bom de conversa.
 
Logo estavam ambos assentados sob a marquise. E estranhamente Jhon sentiu como se fossem antigos bons amigos, que a estrada possibilitava um reencontro depois de muito tempo de ausência. 

Enquanto a conversa avançava, Jhon descobriu que aquele bom homem, vestido com uma jaqueta surrada e bermuda de surfista não era de fato nem alcoólatra, nem mendigo nem nada do gênero. Era sim, um homem muito inteligente, que curtia viajar e que há uns meses se dispôs a conhecer outros lugares no Brasil, viajando no selin de uma bicicleta. Já havia conhecido outros Estados nessa aventura. Tinha até uma página no Youtube! Descobriu também que o novo amigo gostava de trabalhar com animais em fazendas e que teve sua viagem comprometida porque há poucos dias atrás tivera sua bicicleta roubada. Desde então, estivera no trecho a pé. 

Assentados no  chão, conversaram sobre viagem, culturas, Beatles, Dire Straits e The White Stripes e outras bandas das quais o novo amigo era apreciador, além de muitas outras coisas. Pôde, inclusive, conhecer o cãozinho branco, que se chamava Spike. Descobriu que o pequeno animal até poucos dias tinha uma cesta para viagem, na bicicleta, mas agora, por consequência do roubo, também andava a pé, ao lado do dono. Haviam caminhado uma longa distância até chegar àquele ponto, na manhã daquele dia. Estavam cansados. Aí, de novo agradeceu muito a ajuda recebida, estavam muito boas a bebida,  a comida e a conversa - dizia. John sorriu, também satisfeito.

O desconhecido tinha planos. Planejava trabalhar a fim de adquirir uma nova bicicleta para prosseguir viagem. Confessou que se sentia ressentido pelo modo como perdeu seu meio de transporte. Segundo dizia, dias atrás havia encontrado um velho senhor de barba longa, que estava na estrada, andando a pé, completamente desprevenido. Depois de conhecê-lo, comovido, teria repartido com ele seus agasalhos, peças de roupas, e pago até mesmo alguma comida. Ao cair da noite, teria deixado a bicicleta no local próximo e se dispôs a dormir, como sempre fizera. Ao acordar, veio o susto: descobriu que durante a noite o falso amigo havia levado sua bicicleta, e com ela, metade de sua bagagem, incluindo uma rede de dormir, que era sua cama nas paradas nas estradas, durante as viagens. E com olhar sério arrematou: se tivesse a chance de reencontrar o ladrão, sua vontade era de matá-lo.

Nesse momento Jhon o interrompeu. Falou da necessidade de superação, de tratar os outros com bondade, pois o bem sempre volta. Falou da graça divina que sempre acolhe e ampara os injustiçados. Um dia certamente ele teria outra bicicleta. Além disso, afirmou que o bom Deus compensaria essa decepção colocando pessoas boas no seu caminho, que o ajudariam de algum modo. O homem o ouvia com sossegada atenção.

A  certa altura, o homem amenizou o semblante e sorriu. Sim, concordava, Jhon tinha razão. Mas depois, principiou de novo a falar da bicicleta. Segundo ele, o veículo era bem distinto: tinha o quadro coberto de adesivos, dos muitos eventos de clubes ciclisticos, dos quais havia participado. Teria ele mesmo montado o veículo, pintando-o com uma côr diferente, um amarelo bem vivo. Era, portanto, uma bicicleta de fácil reconhecimento, no trecho. Um caminhoneiro teria inclusive revelado a ele uma semana atrás, que tinha visto um velho barbado, com uma bicicleta semelhante a uns 100 kilômetros mais adiante. Mas ele sabia que o ladrão a venderia bem antes de reencontra-lo. 

Houve um momento em que o novo amigo ficou pensativo, olhando um ponto invisível, rosto sério, o cérebro mergulhado no silêncio. Confessou que tivera diversas chances de também roubar bicicletas, logo depois da decepção sofrida, mas não se sentia capaz disso. E se perguntava como aquele velho da barba longa teria conseguido fazer aquilo com alguém que o havia ajudado. Era, para ele algo incompreensível. Se sentia traído.

A conversa ainda prolongou um pouco mais, mas de repente Jhon percebeu que muito tempo já havia passado e que era momento de prosseguir viagem. Antes, foi até o carro, abriu o bagageiro e depois de um tempo vasculhando as bagagens, trouxe algumas peças de roupa nas mãos, o que incluía uma blusa de moletom semi-nova, que foi recebida com alegria. Sacou uma nota da carteira e pôs discretamente no chão, ao lado do novo amigo que agradeceu. 

Trocaram um abraço, desejaram boa sorte, feliz Natal e outras gentilezas típicas das despedidas que comumente acontecem entre duas pessoas que se conhecem às 2h00 da madrugada, em dia de Natal. Enquanto se abraçavam e trocavam sorrisos e gentilezas, uma caminhonete parou do lado e olhares frios, carregados de desprezo vieram da cabine. Jhon ignorou. 

Antes de sair, tiraram uma selfie, reservada para lembrança. O novo amigo fez um último aceno, enquanto John retornava ao carro, feliz por aquela grata oportunidade proporcionada pela Providência. E enquanto ligava o veículo, lhe pareceu que a data se tornou de repente mais significativa. Relembrou as velhas lendas sobre como Jesus se aproximava das pessoas como um pobre. E viu que embora não estivesse com sua família, naquela noite, experimentou como há muito tempo não fizera, uma alegria renovada. E viu que embora na solidão da estrada, havia vivido o verdadeiro espírito do Natal. 

Manobrou o carro, retornando para a BR MG -040 com um sorriso no rosto. O cansaço havia sumido. E era como se o Céu sorrise de volta para ele naquela solidão do caminho que o conduzia para os longes misteriosos do sertão. Logo chegaria ao destino.

- Claudio Sampaio, Várzea da Palma, 28 de Dezembro de 2019.😊

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Obs: 1) A crônica foi escrita com base num fato ocorrido, embora os nomes estejam trocados. 2) Os personagens da história cederam a foto da selfie, que está disponível na postagem.

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