Header Ads

Passagens Subordinativas e a Divindade de Jesus - I

José Carlos Ramos
Th.D.
"A subordinação de Jesus a Deus, verificada em Sua vida na Terra, não conspirou contra a Sua divindade."




 Denominam-se passagens subordinativas aquelas que explicitamente afirmam a sujeição de Jesus ao Pai. Estão en­tre as mais citadas: Mat. 26:39 e 42; João 4:34; 5:19 e 30; 14:28; 1 Cor. 11:3; 15:27 e 28; Filip. 2:7 e 8; Heb. 5:8.

A doutrina do subordinatismo, surgida no segundo século e esposada por alguns Pais da Igreja, en­tre os quais Justino Mártir, Orígenes e Irineu, foi, em realidade, uma tentativa racional de explicar o relacionamento entre as pessoas da Trindade. Mas a integridade divina do Filho e do Espírito Santo acabou seriamente comprometida. No quarto século, o arianismo, rejeitando a plena divindade do Verbo, atribuiu-Lhe uma natureza subordinada, isto é, inferior à do Pai. Em nossos dias, grupos religiosos que negam a existência da Trindade, como as Testemunhas de Jeová, se valem das passagens subordinativas para sustentar um ponto de vista semelhante.

Como Adventistas do Sétimo Dia, afirmamos “que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus, sendo da mesma natureza e essência que o eterno Pai”. (1) Neste estudo tenta­remos demonstrar que a subordinação de Jesus, conforme exposta nas Escrituras, não depõe contra nossa posição cristológica.

"Humilhou-Se a Si mesmo"


Comecemos por aquelas passagens que claramente fazem referência ao ministério terrestre de Jesus e que, portanto, devem ser consideradas na perspectiva da humilhação a que Se submeteu ao Se encarnar.

Jesus veio ao mundo para cumprir a missão que o Céu Lhe con­fiou. Em João 4:34 esta missão é chamada “a vontade dAquele que Me enviou” e “a Sua obra”. Ela es­tava vinculada à redenção humana, para cuja efetuação foi requerida a total submissão do Filho ao propósito divino. Hebreus 5:8 afirma que, através da obediência, Je­sus foi “aperfeiçoado”, isto é, atingiu a maturidade física e espiritual indispensável para oferecer um sacrifício idôneo, todo suficiente para torná-Lo “o Autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem” (verso 9). Natural­mente esta maturação tinha que ver com Sua natureza humana, posto que Sua divindade sempre foi perfeita em todos os aspectos.

Sua humanidade, todavia, carecia de desenvolvimento. Embora Ele possuísse perfeição relativa a cada fase da vida, (2) não deveria enfrentar a morte senão no mo­mento certo, ideal, estabelecido pelo Pai em Sua sabedoria. Jesus Se capacitou para esse momento mediante inteira confiança nas providências de Deus e estrita obediência às Suas orientações.

Assim, se Jesus viesse a morrer antes do tempo determinado, Sua missão resultaria inacabada e se­ria de se duvidar que houvéssemos sido salvos. Chances de morrer antes da hora Ele teve e muitas. Mas de tal forma consagrou-Se ao cumprimento de Sua missão, e de tal forma colocou-Se nas mãos do Pai, que a morte não pôde atingi-Lo se­não no momento próprio (ver João 7:30 e 44; 8:20). No empenho de obstar a Jesus na jornada rumo à cruz, o inimigo empregou todos os meios possíveis para, ou levá-Lo ao pecado, ou criar situações através das quais pudesse eliminá-Lo. Em ambos os casos, ter-Lhe-ia si­do fácil utilizar a própria divindade para Se livrar. Mas isto não era o que devia fazer. Plena submissão ao plano de Deus e total dependência dEle eram-Lhe requeridas em quaisquer circunstâncias.

Devemos também notar que Je­sus não encarou situações de ris­co com indiferença, como se pouco Lhe importasse viver ou morrer. Tampouco foi sensível a elas por mero amor à vida. Sabia que, para ser o Redentor, teria que morrer um dia. Mas sabia também que, segundo a vontade de Deus, tinha que viver até esse dia. Sua vontade de tal forma se identificou com a vontade divina que, nas ve­zes em que Se viu ameaçado, insistiu com o Pai, e isto “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas” (Heb. 5:7), para que fosse preservado, e assim prosseguisse até o fim, até o momento culminante de Seu ministério. Quando esse momento chegou, muito ao contrário de orar ao Pai por livramento, disse: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-Me desta hora? Mas foi precisa­mente para esta hora que Eu vim.” (João 12:27, Bíblia de Jerusalém.) Ao entrar no Getsêmani, Sua al­ma se angustiou extremamente, tendo em vista a natureza da mor­te que O aguardava. Daí Sua tríplice oração: “Se possível, passe de Mim este cálice!” Mas ainda a von­tade de Deus Lhe era soberana: “Todavia, não seja como Eu que­ro, e, sim, como Tu queres.” (Mat. 26:39.) Sua plena submissão ao propósito divino conduziu-O final­mente ao Calvário.

A cruz, portanto, é, neste contexto, o grande clímax de uma atitude de obediência da parte do Filho, que se iniciou no momento da en­carnação (“eis aqui estou para fazer, ó Deus, a Tua vontade”, Heb. 10:9), e se desenvolveu num crescendo de intensidade até o mo­mento em que nossa redenção foi assegurada “está consumado!” (João 19:30), o que equivale a “completei a obra que o Pai Me deu”. Paulo alude a este fato quando afirma que Ele “a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filip. 2:8).

É evidente, pois, que a vontade de Deus envolveu todo o ser de Je­sus e determinou-Lhe o inteiro curso da vida. Cada atitude de Je­sus foi regida pela vontade do Pai. “Não elaborava planos para Si mesmo. Aceitava o que Deus fazia a Seu respeito e o Pai os desdobrava dia a dia.” (3) João 5:19 e 30 deve ser entendido à luz desse fato: “Em verdade, em verdade vos di­go que o Filho nada pode fazer de Si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai ... Eu nada posso fazer de Mim mesmo; na forma por que ouço, julgo ... Não procuro a Minha própria vontade, e, sim, a dAquele que Me enviou.”

Em primeira instância, essas pa­lavras soam como uma adequada reprimenda aos judeus incrédulos que procuravam matá-Lo por julgarem-nO transgressor do sábado (verso 18). “Não Me censurem. Estou fazendo apenas aquilo que vejo Meu Pai fazer.” Mas elas indicam também Sua perfeita adesão à vontade de Deus em todo o transcurso da vida. Ele “cuidava dos negócios de Seu Pai quando mourejava na banca de carpinteiro tanto quando operava milagres em favor da multidão”. (4) E verdade também que todos os atos que praticou visaram à salvação do homem. Tornar-Se o Salvador foi Sua grande motivação, uma motivação coincidente com a vontade de Deus (João 6:39 e 40).

Relacionamento funcional


A pergunta que se nos impõe neste ponto é: A subordinação de Jesus a Deus, verificada em Sua vi­da terrestre, conspirou de alguma forma contra Sua divindade? Absolutamente.

Essa subordinação não se verificou num plano de relacionamento essencial, e sim funcional. Não era um Deus menor prestando obediência a um Deus maior. Isto seria politeísmo e não o que a Bíblia ensina. Vemos um Ser, em tu­do igual a Deus, (5) que Se encarnou e passou a conviver com uma natureza humana passiva de um desenvolvimento necessário e possível de ser logrado apenas no caso de plena submissão a Deus. Foi pa­ra cumprir a função de nosso Substituto e Exemplo, e assim tornar-Se o nosso Salvador, que Cristo viveu como viveu e morreu como morreu, sempre em submissão ao plano divino.

Que Sua subordinação não Lhe furtou um jota ou um til sequer de Sua igualdade com Deus, infere-se do fato de que as Escrituras atribuem a Ele essa igualdade ao tem­po em que testificam de Sua subordinação. Basta que observemos o contexto das passagens aqui consideradas.

Hebreus 5:8, por exemplo, per­tence a uma epístola que já em sua abertura afirma a divindade de Je­sus: Ele é a expressa imagem do Pai, o Agente da Criação, o Sustenedor do Universo, e o Revelador de Deus (1:2 e 3). O próprio Pai re­conhece Sua divindade chamando­ O Deus e ordenando aos anjos adorá-Lo (versos 6 e 8).

Filipenses 2:8 contém uma das declarações cristológicas mais significativas de Paulo. O contexto imediato (versos 5-11) merece uma análise cuidadosa que ficará para uma oportunidade posterior. Por ora, basta-nos observar que no verso 5 Jesus é referido como nosso modelo, o que estabelece o caráter funcional de Sua submissão no verso 8. A seguir, o verso 6 alude à igualdade de Jesus com Deus. Do que Ele Se esvaziou ao encarnar (verso 7) tem sido matéria de discussão teológica. Seja do que for, Seu esvaziamento não deve significar uma diminuição em Sua realidade divina. O mais provável é que o apóstolo esteja se referindo à posição de exaltação e glória que Jesus desfrutava junto ao Pai. (Cf. João 17:5.)

Quanto a João 5:19, é desnecessário dizer que os escritos joaninos são os que mais expressam a divindade de Jesus. O contexto imediato desta passagem, porém, não pode ser passado por alto. No verso 17 Jesus afirma: “Meu Pai trabalha até agora e Eu trabalho também.” Deus é Seu Pai não por­que Ele é Pai de todos e portanto Seu também. O que Jesus pretende aqui é a igualdade com o Pai, o que os judeus percebem muito bem (verso 18). Uma vez estabelecido este ponto, Jesus faz, no verso 19, três declarações muito significativas:

1º) “O Filho nada pode fazer de Si mesmo.” Isto, como se viu, in­dica Sua dependência do Pai e plena subordinação a Ele. Observe que Ele afirma não poder agir in­dependentemente, não porque não tenha capacidade para tal, mas porque não Lhe é próprio fazê-lo. Sua missão é revelar o Pai e não ser um rival dEle. E revelação re­quer subordinação.

2º) “Senão somente aquilo que vir fazer o Pai.” Esta afirmação de­ve ser observada em consonância com o que é dito no verso 20: “Por­que o Pai ama o Filho e Lhe mos­tra tudo o que faz.” No grego o verbo mostrar está no presente contínuo — o Pai nunca cessa de mostrar Sua obra ao Filho. Não se tra­ta de uma simples exibição ao Fi­lho daquilo que o Pai faz. Ver aqui transcende a mera visão ocular. O fazer de Jesus não é simples imitação do fazer do Pai, pois os ver­sos 22 e 27 declaram que não é o Pai que julga e sim o Filho. Ora, se o Filho faz somente aquilo que Ele vê o Pai fazer, temos que convir que Ele julga não porque meramente viu o Pai julgando alguém (isto é declarado que o Pai não faz), mas porque Ele sonda o íntimo do Pai, vê nEle a realidade fundamental do julgamento, e está apto pa­ra cumprir Seu propósito vincula­do ao juízo. Só Alguém igual ao Pai poderia atribuir para Si prerrogativa tal. Com efeito, “ninguém conhece o Pai senão o Filho.” (Mat. 11:27.)

Relacionamento essencial


3º) “Tudo que Este fizer o Filho também semelhantemente o faz.” Mais uma vez a unidade essencial de ambos é declarada. A cláusula de subordinação (relacionamento funcional) deve ser entendida à luz da cláusula de igualdade (relacionamento essencial). Qualquer coisa que difere de Deus é inferior a Deus, pois Deus é absoluto e único. É justamente porque Jesus é igual a Deus que Ele nada pode fazer de Si mesmo, e faz somente o que Ele vê o Pai fazer. Ele não po­deria dizer: “Faço coisas por Mim mesmo ou diferentes das do Pai”, e ainda evocar igualdade com o Pai. A conclusão lógica é que Sua subordinação não é apenas com­patível com Sua igualdade com Deus. Ela a pressupõe. (6)

Teoricamente parece existir, nos termos dessa unidade essencial, uma subordinação recíproca entre o Pai e o Filho. O mesmo Jesus que no Getsêmani orara “faça-se a Tua vontade”, pouco depois reagiu ao gesto impetuoso de Pedro de for­ma a substanciar esta hipótese: “Embainha a tua espada ... Acaso pensas que não posso rogar a Meu Pai, e Ele me mandaria neste mo­mento mais de doze legiões de anjos?” (Mat. 26:53.) O Pai estava pronto para atender o Filho e livrá-Lo da cruz. Bastava que Ele o quisesse. (7)

“O Pai é Maior do Que Eu”


As palavras de João 14:28, “o Pai é maior do que Eu”, também não negam a igualdade de Jesus com o Pai. O termo grego meizon— maior — não tem um sentido qualitativo, como querem os que rejeitam a divindade plena de Jesus, mas quantitativo. Caso a idéia ex­pressa fosse “natureza divina inferior”, Kreítton, que expressa melhor o sentido qualitativo, seria um termo mais apropriado, como em Hebreus 1:4, onde é dito que Jesus é superior aos anjos. A passagem, portanto, deve ser entendi­da à luz da encarnação, e uma vez mais o relacionamento funcional, e não o essencial, é subentendido. “Esta é uma descrição de Sua posição como um servo e não uma comparação de natureza ou qualidade”, (8) como quando Jesus declarou: “Eu e o Pai somos um” (10:30).

João 14:28 deve também ser en­tendido à luz de seu contexto imediato. A ascensão de Jesus ao Pai seria um benefício para os discípulos, pois o Espírito Santo haveria de ser enviado (16:7). Jesus à direita do Pai significa a outorgação de maior poder para a Igreja. A es­te respeito Hoskyns afirma: “No quarto evangelho a expressão maior que significa de poder e autoridade maior que (4:21; 8:53; 10:29; 13:16; cf. 1 João 3:20), e este sentido deve ser relevante aqui. A humilhação do Filho envolveu, de alguma forma real, uma separação do Pai. Sua glorificação e re­torno ao Pai restaura-Lhe uma posição através da qual pode comunicar aos discípulos maior po­der.” (9) Por isso Jesus declarou: “Em verdade, em verdade vos di­go que aquele que crê em Mim, fará também as obras que Eu faço, e outras maiores fará, porque Eu vou para junto do Pai” (14:12). Todavia, não são obras qualitativa-mente maiores, pois neste caso os discípulos seriam superiores ao Mestre. Mas Jesus declarou mo­mentos antes de Sua ascensão: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as na­ções.. .“ (Mat. 28:18.) De fato, a Igreja deve realizar uma obra quantitativamente maior, isto é, mais vasta, mais ampla, que aquela realizada por Jesus. Não a fará, porém, em sua própria força, mas através do poder que a ela é assegurado no fato de que Jesus está entronizado à direita do Pai.

Assim o verdadeiro subordinatismo, aquele esposado pelas Es­crituras e que se deduz da manei­ra como Jesus conduziu Sua vida neste mundo, é perfeitamente coe­rente com Sua realidade divina. Mas o que dizer de 1 Cor. 11:3 e 15:27 e 28, que fazem referência ao Cristo glorificado, restaurado à exaltada posição que sempre ocupou ao lado de Deus, e que mesmo nestas circunstâncias continua subordinado ao Pai? O que real­mente estas passagens significam? Aguardemos o próximo número.

Referências:


1. Manual da Igreja, 1974, pág. 32.

2. E. G. White, Parábolas de Jesus, pág. 83.

3. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 3º edição, pág. 149

4. E. G. White, The Upward Look (Washington DC: Review and Herald Publishing Association, 1982), pág. 67.

5. Respeitando-se a identificação pessoal Pai e do Filho.

6. A nosso ver, Ellen White toca nesse ponto quando afirma: “Embora Cristo Se tenha humilhado a Si mesmo para Se tornar homem, Divindade ainda lhe pertencia. Sua natureza divina não podia ser perdida enquanto Ele permanecesse fiel e verdadeiro a Sua lealdade.” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 5, pág. 1129. Grifos Supridos.)

7. Ver E. G. White , Primeiros Escritos , pág. 170.

8. E. C. Gruss, Apostles of Daniel (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970), pág. 113.

9. E. C. Hoskyns, The Fourth Gospel (London: Faber and Faber, 1947), pág. 464.

Fonte: Revista Adventista: Maio de 1991, pág. 13-16


http://pastorclaudiosampaio.blogspot.com

Nenhum comentário

Sua opinião é importante para mim. O que você pode acrescentar? Entretanto, observe:

1. Os comentários devem ser de acordo com o assunto do post.
2. Avalie, pergunte, elogie ou critique. Mas respeite a ética cristã: sem ataques pessoais, ofensas e palavrões.
3. Comentários anônimos não serão publicados. Crie algum nome de improviso para assinar o escrito, caso não queira se identificar.
4. Links de promoção de empresas e sites serão deletados.
5. Talvez seu comentário não seja respondido imediatamente
6. Obrigado pela participação.