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CORINGA: DA PAIXÃO PELOS HERÓIS AO FASCÍNIO PELOS VILÕES



Os tempos vão mudando e descobrimos que de fato, como alguém disse ha algum tempo, "a vida imita a arte". Lendo as novidades nesta manhã, recebi a notícia de que o filme CORINGA estreado em outubro de 2019, em apenas dois meses teria batido todos os recordes de bilheteria, ultrapassando a marca de dois bilhões de dólares em arrecadação. É muito dinheiro para um filme de baixo orçamento, que gastou 25% do custo normal para filmes da categoria!

Para quem não sabe, o Coringa é um vilão criado por criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane em 1940, e sempre foi apresentado como um louco perverso, um sádico capaz das piores atrocidades, seja nos filmes ou nas publicações da produtora de Quadrinhos americana DC Comics, onde aparece como o principal adversário do Batman. 

Nesse caso, o CORINGA pela primeira vez, ironicamente venceu o Batman. É que na franquia da DC, Batman liderava a aceitação do público com arrecadação de um bilhão de dólares, no filme O Cavaleiro das Trevas, dirigido por Christopher Nolan e protagonizado por Christian Bale, em 2008. Além disso, CORINGA, dirigido por Todd Phillips e protagonizado por Joaquim Phoenix já é favorito para o Oscar em muitas modalidades, inclusive de melhor atuação.

Qual o mistério? Dizem que o filme teve baixo orçamento, um cachê irrisório para o ator principal e tudo foi feito de modo bem simples, sem as apelações naturais de filmes do gênero. O que o sucesso do filme revela, a meu ver é algo simples e evidente nos novos tempos: o surgimento do fascínio pelos vilões.

Vamos tentar entender melhor isso.

Anos atrás, num tempo posterior anterior aos anos 60, o mito do herói prevalecia na literatura, no cinema e noutras formas de arte. Prevalecia em tudo (ou quase tudo) um padrão maniqueísta/dualista fixo: a luta entre o bem e o mal, em pólos opostos, sempre representado pelas figuras do herói e do vilão. O herói, nesse caso, era o portador das virtudes e do equilíbrio moral, sendo que da outra parte, o vilão era o retrato da maldade e do desequilíbrio moral personificado. Amávamos os heróis. Detestávamos os vilões.

Um exemplo típico de uma resistência ao perfil do vilão nesse tempo foi o fato envolvendo o ator Henry Fonda, sempre apreciado para o papel de mocinho, nos filmes americanos. Numa releitura do Western clássico feito por Sérgio Leone em 1968, o ator surgiu como o vilão no filme "Era Uma Vez no Oeste". Isso teve grande resistência do público americano. Para ele, a costumeira figura do herói em Henry Fonda não colava com o perfil de vilão. Muitos rejeitaram o filme. Mas eram já os anos da transição.

Os anos 60 foram marcados por revoluções de minorias como o ressurgimento do feminismo e da luta pela igualdade racial, forçando a uma releitura dos modelos de sociedade, como de fato aconteceu. Pois se percebeu que a ordem social maniqueísta já não era mais vista como tendo base na realidade.

Para ilustrar, a figura do índio, que sempre era pintado como o vilão cruel a ser derrotado pela cavalaria nos filmes de Western, doravante seriam vistos como vítimas. E o mocinho, o herói, este já não seria mais visto como o ser impoluto, o portador de todas as virtudes. Nem tudo na realidade era somente o bem e nem tudo era somente o mal.

Foi nesse contexto que se percebe a queda do mito do herói e a ascensão do chamado "anti-herói". O anti-herói não era o homem preso a um comportamento honesto e correto, dentro de uma ética conservadora. Ele seria capaz de romper limites morais e fazer o que fosse preciso, para que a "justiça" ocorresse. O anti-heroi fugia ao padrão estabelecido da bondade personificada. Às vezes, em essência, ele poderia ser tão mal quanto o vilão. Não havia mais o herói incorruptível. Nem tudo era tão bom. Nem tudo era tão mal. O mito do herói estava caindo. E isso, penso é que preparou o caminho para o fascínio pelos vilões. E aqui chegamos ao fenômeno CORINGA.

O que ocorreu com a chegada de CORINGA nos cinemas, foi nada mais do que a evidência dessa renovada paixão pelo vilão. Antes de sua estréia, era o filme mais questionado. Diversos projetos de retratar vilões foram descartados anteriormente porque aparentemente isso não era viável financeiramente. Perguntava-se: Como a figura de um vilão poderia levar pessoas aos cinemas? Ainda mais se tratando do CORINGA, um dos mais perversos vilões já criados no mundo dos Comics.

Mas a recente notícia é de que as previsões estavam erradas. CORINGA provou que povo tem fascínio pelos vilões. Depois de seu sucesso, tem-se dito que este filme abriu as portas para que outros vilões sejam retratados nas telas e levem mais famílias ao cinema. Há um previsão de continuidade e uma lista está sendo preparada de outros personagens perversos que serão transpostos para a telona. O filme se tornou assim, um divisor de águas para a sétima arte.

Esse fenômeno demonstra a razão da divisão na cultura de modo geral. Bem recentemente, uma resistência do Governo Brasileiro em financiar filmes que não tratavam de figuras eticamente recomendáveis para o padrão moral conservador recebeu duras críticas da imprensa. Noutros tempos, essa perspectiva teria recebido aplausos. Não no tempo de hoje, quando a ideia de certo e errado não está mais evidente no imaginário do povo. Não agora, quando tudo indica que uma perversão dos gostos leva a uma idolatria do mal e um desprezo ao bem.

Para concluir, penso que o sucesso do filme CORINGA é uma evidência de que o mundo está se cansando da ideia de que a contemplação do belo, o cultivo do bem, da honestidade e do que é certo é o mais adequado e atrativo. Caetano cantava em sua canção "Sampa" em 1978: "Narciso acha feio o que não é espelho". O homem repleto de perversidade rejeita a beleza daquilo que é belo em si mesmo. Ele exalta o feio e e desprezível e cultua isso como beleza. A maldade inerente deseja uma expressão. E nesse caso, a admiração do vilão no mundo da arte demonstra apenas que de fato, temos gostado mais do mal do que do bem. Nossa apreciação pelo mal é apenas reflexo de nossa maldade evidente, que mais e mais se acentua. Demonstra que apreciamos a proposta de que a maldade pode ser tão cultuada quanto o bem.

Não sei bem quem cunhou a frase que escrevi no começo desse ensaio, mas tudo o que o sucesso de CORINGA comprova é que de fato "a vida imita a arte". E isso está de acordo com Paulo o apóstolo quando dizia, há mais se dois mil anos atrás que os homens iriam "de mal a pior" (2Timoteo 3:13).

De apreciador de heróis a amante de vilões, em seu gosto depravado, o mundo revela de fato que as coisas seguem a previsão da profecia bíblica. - Claudio Sampaio ASES dia 18 de novembro de 2019.


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