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O Teólogo Diante da Ressurreição de Jesus



Sobre a utilidade e valor da Teologia Cristã, talvez a explicação de P. Elton Pothin em seu artigo publicado no “Tribuna de Petrópolis” on-line, em 21 de abril de 2011, seja a mais convincente. Segundo o autor, foi depois do anúncio dos primeiros discípulos que a Teologia se dispôs a explicar a fé dos apóstolos na ressurreição de Jesus, exclarecendo que a vida tem sentido, pois o Deus da Vida não deixou a humanidade esquecida no sepulcro. Talvez por isso dizemos que esse é o núcleo da fé cristã e a base de nossa proclamação. E também por isso Olson afirme que (para bem ou para mal) todos de algum modo são teólogos, quando articulam sobre sua fé.

Todavia, o que se viu é quem nem sempre os teólogos tiveram sucesso nesta proposta inicial. Talvez no período anterior àquele conhecido como “era da razão” (séculos 18-19), quando o pensamento humano era regido pelo paradigma teocêntrico, mais cômodo anunciar a verdade da Escritura tal como ela se apresentava, especialmente a afirmação de que Jesus se levantou dos mortos. Esse era um ponto comum de crença em meio aos cristãos, desde a igreja primitiva, como consta no Símbolo Apostólico", ou "Credo". Nota-se que desde a introdução do antropocentrismo como paradigma da mentalidade ocidental, e a introdução do pensamento cartesiano em todas as ciências, diversos teólogos renomados têm caído na armadilha do racionalismo e ofuscado a beleza da mensagem original dos apóstolos. Não seria a busca de reconhecimento pela ciência experimental, o verdadeiro motivo dessa postura por parte desses teólogos chamados "liberais"?

Mesmo após o período pós-guerra, no movimento da teologia neo-ortodoxa inaugurada por Karl Barth, que buscava um diálogo com a filosofia e a ciência racionalista, alguns, como R. Bultmann chegaram a desacreditar a fé na proclamação inicial da igreja, afirmando que a ressurreição de Jesus seria apenas uma renovação de Sua causa, a qual se consistia numa proclamação do Reino de Deus e um chamado à decisão por uma vida autêntica. Na verdade, segundo essa escola, a fé na ressurreição de Jesus era vista até mesmo como um impedimento desnecessário para uma fé radical. Por isso, Bultmann propôs que a ressurreição corporal seria um ponto descartável para o cristianismo moderno. O ceticismo de Bultmann foi levado ao extremo por muitos outros teólogos. Mais recentemente, o teólogo cristão J. D. Crossan, um dos componentes do “Jesus Seminar”, desacreditou a ressurreição de Jesus, chegando a afirmar que depois de Sua morte, Seu corpo teria sido devorado por cachorros.

O fato é que uma visão panorâmica no cenário teológico revela que nem todos os teólogos da era moderna tiveram coragem de reafirmar a fé na pregação dos apóstolos. Ao invés de "articular a fé", eles a destruíram e a reconstruíram segundo suas próprias conveniências, numa busca de adequação ao paradigma da ciência racionalista. Contudo, um  teólogo contemporâneo que sempre me impressionou pela sua corajosa disposição em favor do anúncio de Jesus é Wolfhart Pannenberg.

Pannemberg se recusava a explicar os relatos bíblicos da ressurreição de Jesus como apenas um fruto da imaginação dos apóstolos. Levantou muitas questões: Como seria possível que esses homens desanimados ao extremo, após a morte de Cristo chegassem sozinhos à conclusão de que Cristo ressuscitou? Quais benefícios teriam eles em inventar uma mentira de tamanha proporção? Para Pannenberg, a única explicação satisfatória para aquela mudança radical e repentina que ocorreu nos apóstolos seria exatamente a ressurreição corporal de Cristo.

Além disso, como a comunidade cristã primitiva teria conseguido sobreviver, caso o túmulo de Jesus não estivesse, de fato, vazio? Pannenberg recordou que a justificativa criada pelos judeus para refutar a fé na ressurreição de Jesus, de que os discípulos roubaram o Seu corpo jamais teve qualquer sustento, mesmo posteriormente, e isso porque ninguém se atrevia a questionar a realidade factual do túmulo vazio. Assim, de acordo com Pannenberg, o túmulo vazio é um fato histórico, que junto à evidente mudança repentina que ocorreu nos primeiros discípulos de Jesus de Nazaré, se torna uma forte evidência de que Ele de fato ressuscitou corporalmente dentre os mortos.

Ainda que criticado em diversas ocasiões, e acusado de apologista, a coragem de Pannenberg levantou um movimento nos círculos teológicos da Europa, razão pela qual ele tem sido reconhecido como um dos maiores e mais respeitados teólogos de nosso tempo. Apesar de não concordar com tudo o que afirmou em diversas áreas, entendo que Pannenberg foi exemplar ao estimular  a muitos jovens teólogos a serem firmes no que se refere à fé na ressurreição do Senhor, entendendo que esse marco inicial de nossa fé não é de nenhum modo negociável. Rejeitar esse fundamento seria comprometer toda a estrutura do edifício dessa fé que um dia recebemos.


Um Paradigma


Considero que ser Teólogo nesses dias de descrença e transformação, quando tudo aquilo que é visto como “fixo” e “definitivo” é desacreditado, quando tudo exige que seja levado à experimentação, é de fato, um desafio.  Porém podemos descobrir um paradigma em Paulo, o apóstolo dos gentios. Podemos crer que Paulo foi aquele que mais enfrentou esse drama entre sucumbir ao pensamento lógico e experimentalista de seus dias ou permanecer com a proposta de fé recebida como revelação. Sua força na pregação se nota pelo fato de que como verdadeiro teólogo, sua mensagem nasceu de uma experiência pessoal. Para que um dia pudesse ter algo a proclamar, não foi ele apenas um receptáculo de uma fé que a ele foi proclamada; na verdade, Paulo teve de experimentar por si mesmo um encontro vivo com Jesus ressuscitado. Mais que uma mera apreensão de conhecimento acerca de Jesus e Sua mensagem, o anúncio de Paulo tinha a força de uma experiência pessoal com Aquele que o chamara. Em suas Epístolas, sempre se apresentava como um Apóstolo de Jesus, e não de homens. E talvez por isso, sua mensagem era mais que uma proclamação sobre Jesus Cristo: era sua própria vivência com Cristo. Talvez por isso, sua teologia não era conformista, e jamais sucumbia aos padrões de pensamento meramente humanos. Aos de Corinto, pôde afirmar:

“E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, grande temor e tremor que estive entre vós” (1Coríntios 2: 1-3. 

Vale lembrar que o apóstolo viera de uma dolorosa experiência no Aerópago de Atenas (Atos 17:16ss), frente aos filósofos gregos. Quando ali foi zombado, “pois pregava a Jesus e a ressurreição” rumou para Corinto, cheio de “fraqueza, temor e grande tremor”. Embora tivesse motivos para recuar quanto ao conteúdo de sua mensagem, é significativo percebermos sua insitência em 1Coríntios 15:1ss acerca da fé na ressurreição corporal de Jesus de Nazaré. Para Paulo, essa não era uma verdade negociável da fé apostólica, mas a essência dela, no verdadeiro sentido:

“Ora, eu vos lembro, irmãos, o evangelho que já vos anunciei; o qual também recebestes, e no qual perseverais, pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos; e por derradeiro de todos apareceu também a mim, como a um abortivo.” (vv. 1-3). “E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (v. 17).

O grande impacto da Teologia de Paulo certamente foi a noção de que Jesus estava vivo e que havia se comunicado com ele. Sua Teologia era fruto de uma experiência pessoal com Jesus ressuscitado.


Considerações Finais


Penso ser um desafio afirmar a  fé dos apóstolos nesses dias de incredulidade, quando as ideias humanas estão sempre em mutação e reformulação, confrontada pelo experimentalismo, que exige sempre o crivo do laboratório e nega a realidade sobrenatural. Seremos sempre tentados a seguir a corrente do pensamento humano. Mas o que Paulo me ensina é que a minha reflexão teológica só tem relevância para os homens quando ela o desafia a olhar para além de si mesmo, e a despertar sua fé no poder do Deus Criador. Entendo que a minha reflexão teológica só serve ao homem quando ela se encontra a serviço de Deus. E para que ela tenha seu poder para erguer, deve nascer de um encontro pessoal que nasce da fé em Jesus de Nazaré. Contudo, ela de nada serve, se Jesus não ressuscitou ou se Ele não está vivo, pois isso seria viver sem esperança.

Li certa vez que nos anos ’50 o famoso evangelista W. E. Sangster descobriu que tinha uma doença incurável, que causava atrofia muscular progressiva. Seus músculos iriam aos poucos atrofiar e ele perderia sua voz. Sangster se entregou ao máximo no seu trabalho de missões domésticas na Inglaterra.

Mas, aos poucos sua voz acabou por completo. Tremendo, ele ainda conseguia segurar uma caneta. Na manhã de seu último domingo de Páscoa, poucas semanas antes de falecer, ele escreveu um recado para sua filha.

Na mensagem ele escreveu, “É terrível acordar no domingo de Páscoa sem voz para proclamar ‘Ele ressuscitou!’. Porém, mais terrível ainda seria ter uma voz e não ter nada para proclamar.”

Meu convite a todos os teólogos ortodoxos ou não é que jamais calemos nossa voz. De que vale essa voz se nada temos a proclamar? Que anunciemos sempre a verdade mais poderosa do Cristianismo, com a mesma fé dos primeiros que a proclamaram a nós: “Ele não está mais aqui, mas ressuscitou” (Lucas 24:6). E com a mesma alegria de Maria, ousemos dizer: “Vi o Senhor!” (João 20:18).

http://pastorclaudiosampaio.blogspot.com 
diponível para compilação, desde que não sofra alteração e a fonte seja citada

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